Opinião

Porto sentido

Em cidades frias e ricas como Bruxelas, é frequente depararmo-nos com pessoas sem-abrigo a dormir por cima de um cartão, aqui mesmo no bairro das instituições europeias. Estima-se que sejam mais de 700 mil na UE. O pior é que tudo leva a crer que não é fácil encontrar a solução.

Isso mesmo foi reconhecido pela União Europeia, que lançou uma Plataforma de Combate à Situação de Sem-Abrigo para melhorar os dados e facilitar a aprendizagem mútua entre todos os intervenientes que lutam contra este problema.

É preciso perceber porque falham muitas das respostas sociais que têm sido dadas, o que passará pela complexidade do problema, mas também por alguma rigidez nas abordagens.

Diz quem sabe que há uma forte noção de liberdade das pessoas sem-abrigo, que odeiam horários para entrar ou para comer, pouco compatível com o tipo de regras que lhes são impostas em algumas instituições. Parece assim ser necessária maior inovação no desenho das respostas.

Por isso, quando há dois meses entrei no velho Hospital Joaquim Urbano, no Porto, por sugestão do Manuel Pizarro, para visitar o projeto de inovação social Porto Sentido, ia cheia de curiosidade.

Este projeto agrega um vasto leque de respostas para pessoas sem-abrigo. Inclui o alojamento, o acompanhamento psicológico e social e a capacitação para a empregabilidade, através da aquisição de competências pessoais, sociais e profissionais.

Com apoio da Câmara Municipal, nas instalações do Hospital há agora toda a parte residencial, oficinas e hortas. Há ainda lugar para os animais de companhia, que muitas vezes, e bem, as pessoas se recusam a deixar para trás.

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O mais interessante, como explicou a enfermeira Sónia em nome da sua equipa, é não haver uma ideia estereotipada de sucesso, que avalie a reintegração aos nossos olhos. A integração tem de ser avaliada aos olhos deles, tendo em conta aquilo que é possível em cada situação concreta.

O sucesso até pode ser como o do João (nome fictício, mas personagem real). Resistiu a sair da rua, mesmo quando parar de consumir drogas não é uma condição para poder ser acolhido. Pouco a pouco assumiu algumas tarefas, saiu depois para uma casa e acabou por ficar a trabalhar no Joaquim Urbano.

Contudo, há outras histórias bem menos lineares, como a da Luísa e do Vítor. Ela consumia droga de forma pouco moderada. Ele era alcoólico. Cada um recebeu o tratamento adequado que lhes permitiu o realojamento. A instituição preparou a casa para onde foram viver. Mas a crise e outras circunstâncias fizeram com que retomassem os seus consumos iniciais. Por isso, a Luísa teve de voltar à comunidade terapêutica e o Vítor precisou de um acompanhamento especial na sua casa.

"Os nossos utentes são sempre nossos utentes", mesmo quando deixam de viver aqui connosco, referiu a enfermeira Sónia, com o entusiasmo de quem sabe que o seu trabalho melhora a vida de muitos abandonados todos os dias.

É nestes momentos que sentimos bem o Porto, não a cidade fria do granito, mas a cidade quente da solidariedade.

*Eurodeputada do PS

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