Opinião

Tudo em Lisboa?

Depois da interrupção da pandemia, voltou em boa hora a Web Summit, como espécie de festival de ideias e alguma reflexão sobre o futuro digital, talvez menos do que se esperaria, tendo conta o momento desafiante que se vive no mundo das tecnologias. Mas é de saudar o retorno e o êxito da iniciativa.

Entre as boas notícias está a de que, pela primeira vez, a Web Summit teve mais mulheres que homens, o que é um excelente sinal num setor ainda muito desequilibrado como é o digital.

Segundo dados do Eurostat de 2018, 1 milhão e 300 mil pessoas estudavam Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) na União Europeia, mas as mulheres eram uma minoria, representando apenas 17 % desses estudantes. Em todo o Mundo, no florescente setor da Inteligência Artificial, só 22% dos profissionais são mulheres.

Atrair mulheres para as tecnologias e formá-las para esse efeito é por isso urgente. Mas não basta fazer esse trabalho com as raparigas na idade em que escolhem a profissão, como acontece com o programa "Engenheiras por um dia". Precisamos de o fazer com as mulheres que já estão no mercado de trabalho, considerando que se estima que entre 40 e 160 milhões de mulheres venham a ter de mudar de ocupação até 2030 por causa de alterações tecnológicas, como a automatização e a inteligência artificial. Uma vez mais, a Web Summit dedicou algum espaço a esta reflexão.

Entre as novidades, anunciadas, importa mencionar duas das mais sonantes. A primeira é a dita "fábrica de unicórnios", que Carlos Moedas prometeu para Lisboa, o que não se estranha sendo ele o presidente da Câmara da cidade; aguardemos a sua implementação.

O mesmo já não diria do anúncio feito pelo Governo da instalação da European Startup Nations Alliance (ESNA) também em Lisboa. Recordando a triste história da Agência Europeia do Medicamento, que acabou em Amesterdão, e da malograda transferência do Infarmed para fora de Lisboa, era altura de pensarmos em outra localização.

Nunca é tarde para corrigir um erro e fico à espera que este anúncio seja apenas o de uma possibilidade e não mais uma aplicação da teoria que "fora de Lisboa é desprestigiante". O Governo é da República e tem de pensar para além da capital.

PUB

Enquanto proliferarem os "pilatos", aqueles que acham que é sempre impossível transferir um qualquer serviço público para fora de Lisboa e que, por vergonha de votarem contra, se refugiam na necessidade de estudos (não se sabe para estudar o quê), como aconteceu recentemente com o caso da rejeição da transferência do Tribunal Constitucional para Coimbra. É bom que pelo menos o que vem de novo, como é o caso deste excelente esforço para animar o sistema das startups digitais, um dos sucessos da Presidência Portuguesa da UE, seja distribuído equilibradamente pelo território nacional.

Sem isso, o melhor do digital, o emprego de qualidade e o rendimento das iniciativas inovadoras, ficará acantonado em Lisboa, todas as semanas do ano e não apenas naquela em que se realiza a Web Summit.

*Eurodeputada do PS

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG