Opinião

A ousadia de Marisa

Marisa Matias ousou, e com a sua ousadia mostrou que, na política como na vida, o guião não está escrito. Ousou quando se atreveu a candidatar-se a um cargo que muitos julgam reservado à reforma política de detentores de títulos - mesmo que os títulos não correspondam a clareza de ideias e que a idade seja inversamente proporcional à coerência do percurso.

Ousou quando fez uma campanha de rua, de gente e de comoção sem com isso desgraduar a política e a profundidade do debate necessário. Respeitou assim cada pessoa a quem pediu um voto de confiança.

Ousou ainda pensar fora da caixa das inevitabilidades, onde se invertem prioridades para considerar aceitável, ainda que tremendamente aborrecido, lançar mais dinheiro dos contribuintes para a Banca privada. Foi talvez por isso a única a rejeitar à partida a opção para o Banif.

Fê-lo com clareza, sem tentar esconder verdades incómodas: os poderes de Bruxelas diminuem a nossa democracia e a capacidade de decidirmos sobre o país que queremos ser. Precisamos de instituições nacionais dispostas a reconhecer e assumir esse confronto.

A coragem das ideias claras em tempos de falsa normalidade compensou e, por isso, foi de Marisa Matias o contributo mais forte para que houvesse uma segunda volta nestas eleições.

Engana-se quem quer ver na vitória do candidato da Direita um segundo round das legislativas. Para ganhar, Marcelo renunciou a Passos e Portas, praticou amnésia sobre o anterior Governo, reconheceu e apresentou cumprimentos à tal "geringonça" e prometeu promulgar políticas que pessoalmente rejeita, como a adoção entre casais do mesmo sexo e o restabelecimento do aborto livre e gratuito. Por muito que isso desespere o revanchismo da minoria de Direita, todos sabem que, sem esta trégua com o Governo de António Costa, o presidente eleito não chegaria a sê-lo.

A leitura política é outra. À Esquerda não há crise, há recomposição. O espaço vazio que o PS escancarou com as suas indefinições foi ocupado por uma Esquerda de ideias no lugar e mensagens claras. Sampaio da Nóvoa fez uma boa e importante campanha, mas foi incapaz de se libertar de contingências que não eram suas: o confronto com Maria de Belém e a constante definição "de Centro", a identidade natural de quem, como Marcelo, abdicou da política para não arriscar ambiguidades.

Quanto ao futuro, três certezas. A imprevisibilidade de Marcelo, a esperança aberta por uma Esquerda que cresce, e a alegria por nos vermos livres de Cavaco. Ao vetar os diplomas da adoção por casais do mesmo sexo e da reposição do aborto sem humilhações, Cavaco Silva só não apodreceu ainda mais a sua imagem porque já não havia muito por onde piorar.

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