Opinião

A política monetária está cansada, e nós também

A política monetária está cansada, e nós também

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, esteve presente no maior congresso de governadores mundiais, o simpósio Jackson Hole, nos EUA. Não há muito que Costa possa fazer com o que aprendeu, já que são poucos ou nenhuns os poderes do Banco de Portugal nesta matéria, mas isso não quer dizer que a lição não seja importante.

Aparentemente, os maiores banqueiros e economistas mundiais (entre eles o português Ricardo Reis) estão a chegar à conclusão que a política monetária não está a conseguir aumentar a inflação nem trazer ímpeto às economias. Por mais que se reduza as taxas de juro e que se compre dívida privada nos mercados financeiros, não há meio da coisa funcionar. Diz-se pouco sobre por que é que não funciona, mas as respostas para o problema apontam para a entrada em cena dos orçamentos públicos (sobretudo o alemão) ou então o famoso Helicopter Money.

Aquilo que está a demorar anos para as instituições e os economistas do consenso da austeridade descobrirem é dito há anos, e de forma elaborada, por quem, à Esquerda, alertou vezes sem fim para este desfecho.

Não vale a pena atirar dinheiro diretamente para os bancos porque os bancos querem reduzir o seu balanço e mais facilmente o colocam em produtos especulativos do que na economia real. Por outro lado, por parte das empresas e famílias, a situação de sobre-endividamento, agravada pelas políticas de austeridade, impede a recuperação da atividade económica. Em larga medida, o que sobra são os tais fundos de investimento, que compram e vendem participações com o intuito de obter ganhos financeiros. Passos Coelho tinha o hábito de confundir isto com investimento, mas, na realidade, não é. Trata-se apenas da compra de investimento já feito.

Qual seria então a solução para este problema? Os estados. E é essa precisamente a resposta que tem sido dada pelos mais consagrados economistas, de Krugman a Larry Summers. Quando os privados não conseguem fazer arrancar a economia, então devem ser os orçamentos públicos a fazê-lo. Como? Suspendendo as regras que limitam os défices de forma absurda em tempo de crise, criando programas de investimento público, pondo os bancos centrais a comprar diretamente dívida aos estados e evitando a dependência dos mercados financeiros. Qual é o risco destas políticas? A inflação, dizem os mais desconfiados. Pois, mas é esse precisamente o objetivo. Tudo o que for feito a este respeito já virá tarde, e a responsabilidade é do dogmatismo ideológico que tomou conta da política e da economia nos últimos anos.

* DEPUTADA DO BE