Opinião

Não vá em arrastões

Não vá em arrastões

Dia 10 de junho de 2005, a praia de Carcavelos à pinha. Uns desacatos levam a PSP ao local, armada de shotguns, e a confusão instala-se.

Centenas de pessoas correm assustadas, sem perceber o que se passava, chegam mais tarde as televisões. Nessa noite, os telejornais abrem com o "arrastão" de Carcavelos, com fotos de correria e ambiente de pânico. A causa? Um gangue de 500 jovens que "desataram a agredir os banhistas". "Terror na praia", exclama o "Correio da Manhã" no dia seguinte, "Arrastão à brasileira chega a Carcavelos", garante o "Diário de Notícias". Marques Mendes, líder do PSD, exige prioridade ao policiamento nas praias, enquanto José Ribeiro e Castro, do CDS, denuncia a terrível falta de segurança.

Dias depois, o "Correio da Manhã" insiste: "Marginais da Linha descem até ao Algarve", e fala-se no aumento da violência dos gangues. Movimentos de extrema-direita convocam uma manifestação com o lema "imigrantes = crime", e brindam o país com declarações públicas: "O nosso BI não é comprado no Martim Moniz nem aqui no Rossio, a nenhum preto nem a nenhum marroquino. E eles não podem pensar que vêm para aqui fazer o que querem".

Um mês depois, chega a verdade: o arrastão nunca existiu. Houve uns desacatos iniciais entre dois casais e um roubo, a PSP tardou muito a esclarecer os factos e o resto foi obra da Comunicação Social, tocando o calcanhar de Aquiles das nossas democracias: o medo. O medo que alimenta a raiva social, que faz as pessoas olhar para o lado com desconfiança, que clama por autoridade e justifica todas as tutelas. O medo de que se alimenta a extrema-direita.

A história do arrastão mostra-nos que a sensação de insegurança não precisa de um perigo real. Para o propósito da construção do medo como programa político, as pessoas não têm de viver em perigo, basta que se sintam inseguras. E não faltam hoje em Portugal jornais, programas e canais de televisão dispostos a encher esse balão, nem políticos, eleitos ou candidatos, dispostos a aproveitá-lo. Os tempos são de guerra, é verdade, mas pelas audiências. E somos então inundados de crime. O crime está em todo o lado, é analisado, repetido e difundido como se fosse uma epidemia. O país não mudou, as ruas e as praias são as mesmas, mas a insegurança sente-se, como um arrastão que nunca aconteceu.

Não se deixe enganar. O nosso país é o quarto mais seguro do Mundo e a criminalidade tem descido. A maior ameaça à segurança em Portugal é a violência doméstica, um crime tolerado dos vizinhos ao juiz, mas que matou 500 mulheres nos últimos 15 anos e 11 desde o início de 2019.

O medo difuso, esse, é a maior ameaça à democracia.

Deputada do BE