Opinião

O que nós precisamos é de creches

O que nós precisamos é de creches

Num documentário de Sérgio Tréfaut, chamado "Outro país", há uma cena inesquecível. O filme reúne imagens de arquivo de jornalistas e realizadores estrangeiros em Portugal durante o 25 de Abril. Às tantas, aparece no ecrã um grupo de moradores de Setúbal, que tinha ocupado as instalações de um elitista clube de ténis, porque precisava de construir uma creche para os seus filhos. E lá estava, a creche improvisada no salão maior. Cá fora, o espaço tinha sido dividido. Aulas de ténis para quem quisesse e espaço, ainda que mais limitado, para os burgueses de antigamente.

Por que é que me encantou esta ocupação, ainda que simbólica (uma vez que o espaço foi mais "cedido" do que ocupado)? Porque me parece exemplar sobre as escolhas que fizemos há 41 anos - quando o país foi confrontado com os seus pobres, as suas desigualdades e urgências - e o que isso nos diz sobre as nossas escolhas, hoje.

Quando, em Abril, escolhemos as creches, foi para derrubar o espartilho onde os filhos de sapateiros seriam sempre sapateiros. Quando, em Abril, escolhemos a igualdade, compreendemos que essa igualdade não era compatível com os privilégios das grandes famílias. Quando, em Abril, quisemos a dignidade, compreendemos que a dignidade precisa de uma casa, escola, centro de saúde, trabalho e salário.

Sim, é verdade, o Estado social é uma escolha, e tem um preço. O preço que temos de pagar, enquanto sociedade, pela nossa escolha é a igualdade na redistribuição de riqueza. Numa sociedade desigual nunca haverá que chegue para todos, apesar de "todos" serem a maioria.

Vem isto a propósito da vinda de Piketty a Portugal. Vale a pena ler, no seu livro "O capital no séc. XXI", onde nos levaram as escolhas desde os anos 80. E como a liberalização das economias, desregulamentação do trabalho e aprofundamento dos mercados financeiros não só não souberam trazer atividade económica como alimentaram uma classe rentista, que se apropria da riqueza produzida e cava o fosso das desigualdades.

A concentração de riqueza é, hoje, mais injusta e desigual do que no pico do capitalismo selvagem. De 1987 para cá, os rendimentos do capital cresceram três vezes mais depressa do que a economia mundial. E a austeridade mais não é do que uma forma de extrair riqueza dos impostos e salários para garantir a manutenção destes crescentes níveis de exploração.

É neste contexto que a reestruturação da dívida - também defendida por Piketty - se torna incontornável. Não teremos recursos para o Estado social, enquanto o trabalho e a riqueza que produz for apropriado por todas estas formas de rentismo. E o que nós precisamos é de creches.

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