Opinião

Uma fachada que envergonha

Uma fachada que envergonha

O Governo diz que as regras europeias obrigaram à privatização da TAP. Não perguntou, não tentou, não quis saber. Mas as regras europeias também dizem que a TAP não pode ser gerida por um não-europeu. E o Governo não perguntou, não tentou, não quis saber. E aceitou participar ativamente numa farsa, ao entregar a nossa companhia aérea de bandeira por 10 milhões de euros e umas promessas de capitalização que ainda ninguém conseguiu perceber bem ao consórcio Neelman/Barraqueiro.

Ficámos, esta semana, a conhecer mais alguns dos contornos do negócio montado para a TAP. A falta de transparência é transversal a todos os processos e, por norma, anos mais tarde descobre-se porquê. No caso da EDP e da REN foi preciso esperar pela auditoria do Tribunal de Contas, que afirma claramente que o interesse público não foi assegurado.

Mas voltemos à TAP. Humberto Pedrosa, a parte nacional do consórcio, tem ações representativas de 51% do capital mas só vai injetar 5% do dinheiro na empresa, ter direito a 24,63% dos lucros, e não poderá tomar decisões sem a aprovação do seu sócio norte-americano. Isto porque as suas ações, apesar de serem em maior número, são "ordinárias", e as de Neelman de "Categoria A".

A conclusão é óbvia para qualquer pessoa, e não dá para acreditar que tenha passado despercebida à sobejamente propagandeada qualidade técnica do secretário de Estado Sérgio Monteiro, sobretudo no que a privatizações e PPP diz respeito. A Barraqueiro surge no negócio de compra da TAP apenas como testa de ferro do grupo norte-americano. Se ainda nem a operação foi consumada e as promessas de manutenção do centro de decisão em mãos portuguesas já foram violadas, o que será das garantias de proteção do interesse estratégico do país?

Por estes dias o contraste é tão óbvio que é impossível não tropeçar nele. Enquanto na Grécia há um Governo que, com o seu povo, luta contra a humilhação imposta pelas instituições europeias, em Portugal o Governo de Passos Coelho usa as instituições europeias contra os interesses do povo e, se possível, para humilhar os gregos. Enche-nos de vergonha.

DEPUTADA DO BE

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