Opinião

A qualidade das fugas de informação

A qualidade das fugas de informação

O embaixador americano em Lisboa, Alan J. Katz, publicou um interessante artigo, intitulado "Liberdade sem fios" (Sol, 18 do corrente), em que analisa as questões da informação no mundo contemporâneo, lembrando o apelo de Hillary Clinton a um "compromisso global pela liberdade na Internet".

Sem se limitar a defender a "liberdade da ligação online" - espécie de extensão contemporânea da liberdade de imprensa - o embaixador Katz coloca vários e diversificados problemas. Muitos deles constituem amplificações da possibilidade de conflitos de valores entre a liberdade e a segurança ou o desejo de transparência e a necessidade de segredo.

Desde a paralisação da Internet no Egipto ou a censura exercida sobre a "rede global" em países como a China, diversos acontecimentos recentes chamam a nossa atenção para os problemas de comunicação no ciberespaço. A defesa da livre circulação de notícias e opiniões na Net constitui um princípio geral, mas não resolve, por si só, a questão de compatibilizar a liberdade de informar com os segredos de segurança e defesa no plano nacional e internacional.

Os Estados Unidos confrontam-se, desde o caso dos "documentos do Pentágono", nos anos 60, com a necessidade de estabelecer fronteiras entre a liberdade de expressão, a segurança nacional e o segredo de defesa. O contexto, porém, modificou-se radicalmente. Os avanços tecnológicos permitiram romper as fronteiras dos Estados-nação. A relação entre informação e território coloca-se de uma forma muito diferente das eras em que dominavam o telégrafo, a imprensa e a rádio.

O caso Wikileaks veio recolocar, numa dimensão alargada, um antagonismo já antigo: o sucesso dos jornalistas pressupõe a divulgação das informações e o dos políticos, militares e diplomatas requer, por vezes, o segredo. Não há nenhuma receita geral aplicável ao problema, mas evidentemente o segredo de Estado numa democracia ou numa ditadura não podem ser avaliados pelo mesmo diapasão.

As revelações veiculadas pelo website de Julian Assange revelam as dificuldades dos Estados Unidos em protegerem o sigilo dos seus próprios arquivos. Esta questão pode ser vantajosa para as potências que prosseguem políticas antagónicas às dos EUA, mas também coloca questões de confiança nas relações entre Washington, os seus aliados e interlocutores num universo em que as relações internacionais pressupõem cada vez uma perspectiva de diversificação e abrangência.

PUB

Se a "hiperpotência" não consegue guardar os seus próprios segredos, projecta no mundo uma imagem de alguma fragilidade, se os documentos emanados das embaixadas americanas estão à mercê de quem os utiliza na política interna de outros países, mormente dos aliados tradicionais, tais factos, além de fomentarem climas de suspeição, causam embaraços desnecessários à diplomacia dos Estados Unidos. Até porque, como é evidente, os interesses americanos não são, nem têm de ser, necessariamente coincidentes com as perspectivas dos seus aliados permanentes, tradicionais ou circunstanciais.

Muitas das recentes "fugas de informação" referem-se a questões menores ou anedóticas, mas outras possuem inegável relevância. De entre vários ângulos de análise possíveis, também será interessante verificar a qualidade dos relatórios dos diplomatas americanos. Da mesma forma que um brilhante intelectual pode não se transformar num grande ministro, o poder e a força não garantem, por si sós, a inteligência política e estratégica.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG