Opinião

O "razoável" discurso do presidente

O "razoável" discurso do presidente

O valor de uma voz autónoma, que não se esquiva a dar o seu testemunho em momentos críticos do debate político, ficou patente nas declarações do antigo Presidente da República, Ramalho Eanes, a propósito do controverso discurso de posse de Aníbal Cavaco Silva.

Apoiante e membro da comissão de honra da recandidatura do Presidente em funções, Eanes não se esquivou a uma apreciação autónoma. Classificou o discurso como "razoável", o que não será muito abonatório. Criticou-o ainda porque o Presidente "esqueceu a crise externa e a influência da crise externa na nossa própria crise".

A análise comparativa dos discursos do Presidente da República e do Presidente da Assembleia da República, coloca em evidência a omissão de Aníbal Cavaco Silva, ao limitar a meia dúzia de linhas banais a referência à dimensão internacional e europeia na actual crise económica portuguesa.

O Presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, em flagrante contraste com Cavaco Silva, não poupou palavras na crítica à actual política de Bruxelas (ou, melhor dizendo, à ausência dela), ao referir-se à subalternização com que a União Europeia se tem conformado, vendo "o seu papel à escala global ser (...) secundarizado por falta de perspectivas e ambição, limitando-se, em alguns casos, à emissão de meros comunicados sem transcrição relevante em parte alguma".

Estas palavras parecem especialmente dirigidas ao apagamento da Comissão, embora se alarguem também "à inexplicável lentidão com que os órgãos da União Europeia têm vindo a adoptar as medidas que há muito a situação exigia". Jaime Gama considera ainda que "uma união monetária frágil é o corolário de quem nunca realmente quis, e continua a não querer, uma verdadeira união económica nem uma verdadeira união política".

Estas palavras severas do antigo ministro dos Negócios Estrangeiros, proferidas, minutos antes, no mesmo lugar, realçam a ausência das questões internacionais e europeias na comunicação do Presidente da República. Como se fosse possível reduzir a actual crise económica e financeira portuguesa a um problema exclusivamente nacional e isolado do contexto externo. Por mais crítica que seja a apreciação da política económica e financeira dos governos de José Sócrates, não é possível responsabilizá-los pelas consequências da crise de 2008, nem pela aparente incapacidade de resposta das instituições europeias, bloqueadas, em especial, pelo interesse nacional da Alemanha.

Por motivos diferentes, o discurso presidencial descontentou o partido de Governo e toda a oposição de esquerda, concitando apenas o apoio da minoria de centro-direita e direita na Assembleia da República, unificada pelo teor doutrinário de Cavaco Silva. Ao obter apenas os aplausos do PSD e do CDS, o Presidente reduziu o crédito da sua declaração de intenções inicial, ao afirmar, em consonância com o que disse na campanha eleitoral, que actuará "como elemento moderador das tensões da vida política e como factor de equilíbrio do nosso sistema democrático". A intervenção na tomada de posse veio demonstrar que o discurso na noite da vitória eleitoral não constituiu, ao contrário do que foi dito por alguns, uma mera reacção emocional a ataques "ad hominem" de que foi objecto ao longo da campanha. Marcou, sim, o início de uma nova era no exercício presidencial de Cavaco Silva.

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A argúcia táctica de José Pacheco Pereira permanece intacta, ao defender que "o governo, se for capaz de continuar a execução orçamental sem descalabro total, deve cumprir a legislatura toda até 2013". Estas afirmações de Pacheco Pereira conduzem-me a questionar se ainda fará sentido a permanência de José Sócrates em S. Bento. Tendo a concordar com o que disse Vítor Ramalho, dirigente do PS, em entrevista ao "Sol": " Se eu fosse primeiro-ministro, ponderava a demissão". Mas Sócrates, por enquanto, não o fará. Não é esse o seu estilo.

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