O Jogo ao Vivo

Opinião

#confinamento

Se olhássemos o Mundo como o Frederick Wiseman enquadra tudo, não sei se tudo isto não seria mais fácil.

A vida como a mostra o cineasta - num hospício de Massachussets ou na Ópera de Paris - parece apenas uma simples sucessão de acontecimentos e a sua enunciação neutra ora obriga a um refundado respeito pelas pessoas, ora fere o olhar e repugna. Mas também celebra a rotina como uma aproximação à poesia do prosaico.

Há beleza na frieza aparentemente desligada dos seus documentários, mas é frieza ainda assim, mesmo que nada como a imposta pela tecnocracia sem emoções que nos marcava os dias bem antes da covid - até autópsias viraram entretenimento em série.

Se nos estivéssemos a ver num filme do americano, o confinamento pareceria uma continuidade distante, observada e avaliada de um lugar confortável. Mas nada é realmente assim, lamentavelmente: o isolamento é trágico, mesmo que o saibamos necessário; é bom precisar de calor, ainda que só o vazio emocional possibilite a aceitação; deixa-nos tristes a comunicação virtual, mesmo que só assim se assegure a continuidade. Estamos, pois, desta maneira: o que nos vai desfazendo é precisamente o que nos salva.

Jornalista

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