Opinião

#averdade

Num ensaio na "The New Yorker", Hannah Arendt fez, em 1967, um alerta pungente: "As chances da verdade factual sobreviver à investida do poder são realmente muito poucas; corre sempre o perigo de ser manobrada, não apenas durante um tempo, mas, potencialmente, para sempre. Os factos e eventos são infinitamente mais frágeis do que os axiomas, as descobertas, as teorias - mesmo as mais especulativas - produzidas pela mente humana; eles vivem no instável campo dos assuntos dos homens".

A verdade, ou a verdade que sobra depois de todas as outras, é realmente assunto do Homem e é assunto sério, tão sério quanto a História - que quase sempre é mais um conjunto de verdades circunstanciais do que a circunstância registada como verdade. Mudar a narrativa a seu favor é um objetivo inscrito no código genético do poder, seja qual for a forma que assume, democrática ou outras, especialmente a versão que nos vai assustando hoje: a democracia manipulada por homens que a desprezam mas que dela se servem.

Trump e Putin, como Erdogan ou Orbán, são várias faces de uma mesma moeda, que usam para investir sobre os factos e obter o retorno da verdade que lhes serve, à medida dos acontecimentos que fabricam. Não é fácil contornar este poder, mas será mais difícil se baixarmos os braços ou se nos limitarmos a carregar, sem pensar (e sublinhe-se o sem pensar), em botões virtuais.

JORNALISTA

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