Opinião

A idade do gelo

Quem anda à chuva molha-se mas para tal é preciso que chova. Talvez inspirados pelo sol escondido entre as nuvens de mais um verão irreparável para a nossa caderneta de cromos de férias para esquecer, milhares de pessoas escolheram ir a banhos por uma boa causa usando um balde de água gelada ou cubos de gelo laminados. Um surto de "faça-o você mesmo e em casa" até porque a praia não recomenda grandes aventuras particulares ou mediáticas. Os famosos banhos públicos - por pessoas conhecidas ou anónimas - assolaram o planeta verão português, transformando a estação mais fria dos últimos anos no verão mais gelado de que há memória. O fenómeno do "Ice Bucket Challenge" ganhou contornos virais na Internet e não se pode dizer que a causa seja má, pelo contrário. Estima-se que, só nos EUA, a campanha já tenha chegado aos 40 milhões de receita quando no ano passado os donativos não tinham ultrapassado os dois milhões de dólares. Neste século, as redes sociais já estiveram na base de revoluções civis e primaveras árabes mas talvez tenha sido a primeira vez que um acto viral francamente risível se transformou na maior campanha de fundos à escala planetária. Pode dizer-se que rir é o melhor remédio para uma doença incurável ou estaremos apenas perante um viral sinal dos tempos?

A indústria farmacêutica bem podia declinar o banho gelado e fazer um generoso donativo. Ela poderá responder, em grande parte, pela ausência de tratamentos efectivos para muitas das maleitas da saúde pública na sociedade contemporânea. Neste caso particular, estamos a falar de minorias: nos EUA "só" duas pessoas em 100 mil são afectadas pela esclerose lateral amiotrófica. Como em tantas outras doenças incapacitantes ou até mortais, a indústria olha aos números e faz contas em série, contabilizando o investimento a despender como desproporcionado à possibilidade de encontrar vantagens económicas na hipotética cura. É óbvio que para a indústria farmacêutica não compensa aviar a receita. Esta indústria é, como sabemos, gelada quando toca a números. E é então que responde a sociedade civil digital em que nos transformamos, esfregando os seus zeros e uns na cara dos financeiros dos barbitúricos. Nem que para isso tenha que se rir de si mesma, nem que para isso tenha que inventar uma moda, nem que para isso até desconheça verdadeiramente que doença é esta. Podemos não conhecer a doença mas não desconhecemos o desafio. E então, cá vai balde.

Tomar posição sobre os costumes coloca-nos sempre no pior dos territórios e em fatal desaproximação à lógica. Entramos no campo da moral e da ética, na apreciação que temos de nós e dos outros, cedemos rapidamente à tentação do julgamento fácil. Pela minha parte e em relação aos baldes, nada contra. Perante a nobreza da causa teremos sempre que presumir a melhor das intenções por parte de quem resolve enfiar um ridículo balde ou tina de água gelada pela cabeça abaixo, desatando aos gritos ou esgrimindo expressões estranhas. Se não presumirmos a boa intenção, estamos a comprar uma grande parte do cinismo que está à venda sem prescrição médica. No fundo, estaríamos a voltar à nossa própria Idade do Gelo, há cerca de 20 mil anos atrás. Isso não impede que a opção deva ser sempre a do pensamento crítico: um balde de água nada resolve e um donativo só atenua. Eu optei pela redução dos danos e fiz donativo, recusando filmes, seguindo a ideia original do vírus mediático: a possibilidade de escolha. Prestando-lhe homenagem pelo alerta. Mas não pensemos que esta ou qualquer outra doença acaba por mandato civil, vídeos para os apanhados ou contribuições singulares. As políticas governamentais para a erradicação das enfermidades são semelhantes às políticas para a erradicação da fome. Pouco ágeis, muito ávidas.

Depois, desculpem a graçola, tenho sempre imensas dúvidas sobre a temperatura da água. Quem garante, com toda a frieza, que aquela água é gelada? Com seriedade, mantenho dúvidas sobre tanto "show-off". O que virá a seguir? Como tantos outros, opto pela contribuição, recusando baldes (veja-se o brilhante e simples vídeo de Rui Unas, também viral na Internet). Mas não é pela desconfiança que devemos afastar-nos da causa e do seu fim. E também confesso que o "atirem-me água fria" (como canta Rui Reininho) até seria bem mais fácil para mim do que contribuir para o Banco Alimentar Contra a Fome sempre que Isabel Jonet abre a boca. Mas não é por ela que deixo de o fazer. Como se apanhasse com um balde de água fria, só sou obrigado a conter a respiração.

(http://www.apela.pt/page/228/campanhaaguagelada)

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