Cimento líquido

A Igreja confessa

O episcopado francês demonstrou "vergonha" e pediu "perdão" às mais de 300 000 vítimas de pedofilia, menores abusados em instituições da Igreja Católica francesa entre 1950 e 2020. Cerca de 216 mil crianças e menores, 80% dos quais masculinos, foram abusados ou agredidos sexualmente às mãos de clérigos católicos ou religiosos. As conclusões do relatório da comissão independente referem-se "apenas" aos últimos 70 anos e deixam no ar o que terá sucedido na primeira metade do século XX e, à medida que recuamos no tempo, a realidade pérfida de tempos idos da escola católica de virtudes.

Sem ironia. Caso estivéssemos a lidar com crimes cometidos por uma qualquer outra organização que não a Igreja, já teria caído o Carmo e a Trindade. A gravidade dos crimes é acentuada pelo antagonismo dos valores, bem prega Frei Tomás. Qual a razão que levou cerca de 3000 pessoas ligadas à Igreja Católica a abusarem sexualmente de menores, à média de 4300 crianças/ano? Desde logo, o sentimento de protecção e de impunidade. Os números são aterradores, os crimes hediondos. A razão pela qual tantas famílias continuam a confiar as suas crianças à Igreja e às suas instituições tem raízes fundas num processo de confiança que, sendo bem evidente é, simultaneamente, imperscrutável. Vai para além da fé nos homens. Tem muito de pagão e, emocionalmente, aponta para a fé que as pessoas projectam no seu futuro e na sua morte. O episcopado francês fez bem em não se fechar num confessionário e pedir perdão. Mas tudo o que não fizer internamente para erradicar estes comportamentos, a partir de agora que todos nós sabemos que sabe, fará caminho directo ao inferno.

Mais do que um acto de humildade e reconhecimento do erro perante o outro, pedir desculpa ou perdão é um acerto com a História. Tantas vezes, com a história das mais pequenas coisas, dos simples actos individuais ou singulares; outras, com a magnitude do escopo das nações e da marca que deixam no tempo, da ciência que nele fazem os homens. Se há dívidas éticas e morais que se pagam na hora - como o caso do imediato pedido de desculpas da Igreja francesa -, outras há que só a passagem do tempo ilumina. Daí que o "negacionismo" não acompanhe o "desculpassionismo". É mais fácil negar as evidências. É mais simples atirar para os costumes de época e repousar na ideia de que "isso foi há muito tempo, quando o homem era assim". É também por isso, para não deixarmos os negacionistas surfar a onda da História, que é fundamental marcar posição sobre o que, ainda que bem lá atrás, fizemos de pior. Continua a não ser unânime a ideia de uma nota histórica de desculpa sobre parte dos Descobrimentos portugueses, mas fica a pergunta: na cabeça dos "bons opressores", quando prescrevem os crimes contra a humanidade? Mais do que destruir o Padrão dos Descobrimentos, importa, isso sim, erigir monumentos às vítimas. Uma História de construção e desconstrução, nunca de apagão da memória e do que devemos ao reencontro dos valores pelos quais lemos, aos dias de hoje, a boa ou a má História.

o autor escreve segundo a antiga ortografia

Músico e Jurista

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