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A responsabilidade do PS

A responsabilidade do PS

As eleições presidenciais criaram um sentimento de orfandade transversal a todo o espectro político. Ninguém pode reclamar vitória com propriedade, mesmo aqueles que explícita ou implicitamente apoiaram a recandidatura vencedora de Marcelo Rebelo de Sousa.

Talvez seja essa a grande virtude ou coroa de glória do reeleito presidente da República, a da aparentar vencer sozinho, independentemente de, apesar de qualquer coisa. De alguma forma, a aproximação ao consenso é isto, parecer de todos sem depender de ninguém.

Desta vitória, nem PSD ou CDS (que apoiaram Marcelo), nem PS (que, através de António Costa, lhe lançou a candidatura), podem reclamar parte. As eleições são marcadas pela fuga do PS à sua responsabilidade ao não ter apresentado candidato próprio ou apoiado explicitamente algum. Um partido fundador da democracia falta à chamada no momento em que a democracia mais exigia a sua presença e com isso consegue, simultaneamente, potenciar o crescimento da extrema-direita e esvaziar (pela necessidade do voto útil em Ana Gomes, enfraquecida pela falta de apoio do seu partido) BE e PCP, os seus parceiros informais de governação até à data.

Pela acção ou inacção, as presidenciais criam uma imensa dor de cabeça geral para os partidos com grupos parlamentares. Se a Esquerda é obrigada a reflectir, a Direita está obrigada a reconfigurar. O PSD não pode reclamar vitória de um candidato que recebeu tantos ou mais votos dos seus eleitores como de eleitores socialistas. O PS não pode reivindicar louros de um resultado que não corresponde à defesa do seu espaço político, afastando-se do apoio à candidatura de uma militante destacada do seu próprio partido. O BE, alegando o peso do voto útil, e o PCP fazem contas aos votos, transferências, perdas e danos. O PAN, pela sua falta de identidade ideológica, apesar do apoio a Ana Gomes, nunca saberá em que candidato terá votado cada um dos seus eleitores. O CDS desaparece e tenta agora ressurgir in extremis com o apelo de Adolfo Mesquita Nunes, em nome da sanidade e da cerca sanitária política do espaço.

A falta de comparência do PS criou um perigoso puzzle político em que as peças não encaixam. Este tacticismo irresponsável do PS pode não penalizar o partido nas urnas mas penalizará irremediavelmente a democracia. O futuro próximo viver-se-á no reflexo deste crescimento da extrema-direita que significa coisa nenhuma para a saúde da direita democrática, assim como na avaliação da extensão do esvaziamento eleitoral à Esquerda, num momento em que se aproximam as autárquicas (onde o BE não tem implementação e o PCP pode sofrer um revés irremediável). Ou seja, tudo pode agudizar-se. À sua responsabilidade. O PS resolveu correr o risco de tentar a maioria absoluta ou de só poder olhar para a Direita para fazer coligações, num momento em que o PSD de Rui Rio se entretém em embalar o berço da extrema-direita.

Músico e Jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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