Cimento líquido

Benfica e o seu golpe de Estado

Benfica e o seu golpe de Estado

Quando as negociatas dão para o torto, alegar desconhecimento é uma modalidade olímpica dentro do mundo dos negócios financeiros.

Daí a ataques selectivos de amnésia, vai um curto caminho. Entre tentativas de esquiva e meias palavras, a questão invade a opinião pública quando sucessivas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI) colocam a descoberto o descaramento de um conjunto de protagonistas agiotas, responsáveis por abalos ao sistema financeiro, gente que relata manigâncias com desfaçatez, soberba e distinta lata.

Joe Berardo desfez-se aos pedaços na sua CPI em 2019. O mesmo aconteceu, com maior dose de ingenuidade (mas igual convicção de cobertura por um manto protector) com Luís Filipe Vieira (LFV). A importância das CPI - sempre relativizada pelo facto de, obviamente, não se poderem substituir aos tribunais de forma a retirar consequências punitivas das suas conclusões - cresceu na medida em que tornou visível a soberba do discurso dos visados, a sua arrogância, o comportamento de enguia ou de desvalorização intrínseca de qualquer trafulhice ou esquema montado para lesar o Estado, beneficiar os próprios ou terceiros.

Apesar de grande parte dos esquemas já serem do conhecimento público e relatados jornalisticamente, foi necessário que os ouvíssemos assim, em voo raso no seu discurso directo, para que - acto contínuo - alguns políticos, jornalistas, comentadores e humoristas fizessem o seu trabalho. Foi um golpe de sorte ou um exercício de "timing" último. Porque podia não ter acontecido, se fosse agora. Joe Berardo, LFV e tantos outros transportaram a identidade para as CPI, deram-nos o que são, tal como são, descarregaram toda a sua impunidade para português ver. Como intocáveis que julgavam ser, incriminaram-se publicamente.

Uma semana após a detenção de Joe Berardo, no dia seguinte às buscas realizadas por suspeitas de fuga aos impostos e fraude fiscal a propósito da venda das seis barragens da EDP ao consórcio liderado pela francesa Engie, a detenção do presidente do Benfica na "Operação Cartão Vermelho" é um real alerta de prevenção geral com efeito dissuasor. Suspeito de ter lesado o Estado, Novo Banco e o próprio clube, LFV só pode agora apelar à noção dos outros. À noção que perdeu sobre si. As notícias que dão conta da intenção da actual direcção do Benfica em cumprir o mandato, elevando Rui Costa à presidência, é o fim da decência que resta a Vieira. Deixá-lo sair pelo seu próprio pé (o mínimo que se exige) nos próximos dias, é incompatível com prosseguir o legado, como se de nada soubessem, assinassem ou antecipassem. Com ou sem prisão preventiva, eis algo que não se faz a um presidente num regime ultrapresidencialista. Mas lendo os comunicados do clube SAD, nem uma palavra de conforto ou confiança em LFV. Se a direcção do Benfica não cair, assistimos a um golpe de Estado perpetrado pelo próprio poder.

*Músico e jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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