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China: do milagre à doença

China: do milagre à doença

A alucinação colectiva que se apodera da análise sobre o que está longe ou sobre o que nos aparece como diferenciado, resultado do choque de culturas, é o refém primogénito dos nossos medos, dúvidas e angústias, reflexo das dúbias intenções e da incompreensão histórica, envolto em premissas e preconceito sobre os desígnios e costumes dos outros. A visão do Ocidente sobre os protestos contra as políticas "covid-zero" na China é um manancial de teorias da conspiração que demonstra a facilidade com que se diaboliza um país de 1,4 biliões de habitantes que conseguiu evitar, a ferro e pulso, números catastróficos na evolução da pandemia. Comparar as 5000 mortes por covid na China com os números nos EUA (1 milhão) e no Brasil (700 mil) não é um bom argumento para quem considera que as políticas de um país que conseguiu retirar mais de 700 milhões de chineses da pobreza extrema nas últimas quatro décadas (cerca de 80% das pessoas que saíram da pobreza extrema no Mundo, nesse período) está, agora, a procurar exterminar os seus cidadãos mais velhos (150 milhões de idosos) para controlo da taxa de natalidade, equilíbrio das contas públicas e bem da economia.

Os recentes protestos em várias cidades chinesas são a mais massiva contestação pública desde os confrontos de 1989 na Praça Tiananmen. Mais de três décadas depois, a máquina reprodutora de classe média chinesa parece estar a sofrer sobressaltos nada previstos, tendo em conta as previsões que apontavam o ano de 2030 como aquele em que o PIB chinês ultrapassaria, em muito, o norte-americano. A tomada de poder da China no Mundo é, agora, um teste à resistência do regime absoluto de Xi Jinping. Enganem-se aqueles que acreditam ser uma força democrática anti-sistema que lidera os protestos e a contestação actual. Mas não menosprezem, outros, o poder libertador de um povo que vê a repressão exercida sobre as manifestações. É altura do uso de pinças pelo regime chinês.

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Controlo, domínio, contenção. Apostando tudo nas políticas restricionistas, com alta aceitação pública na fase inicial da pandemia, o PC chinês rejeitou as vacinas ocidentais e apercebe-se, agora, do fracasso do seu processo de vacinação não obrigatório (apesar de cerca de 90% da população estar vacinada) e da falta de capacidade instalada nos serviços de cuidados intensivos. "Orgulhosamente sós", será sintomático para o doente. Encruzilhada. Depois de tanto apostar em fechar, não criou condições para reabrir. Um erro de saúde pública pode pôr em causa o regime e o comportamento da economia quando, ainda ontem com Charles Michel, a China assegurava não ter conflitos estratégicos com a UE, exortando ao aproveitamento das "oportunidades de mercado". "A China não quer dominar ninguém", assegura o regime, quando o povo se sente enjaulado e sem voz. Sem capacidade para conter os números da pandemia, fora da jaula pode ser o caos.

*Músico e jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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