Opinião

Disco riscado

O momento de terror para quem poupava uns cobres no desejo de comprar um par de discos no fim do mês. A escolha era um momento decisivo e havia até quem elaborasse quotas: uma parte do aforro para os discos dos artistas pelos quais esperávamos religiosamente e a outra parte da mesada para as apostas pessoais com as quais podíamos surpreender e espantar os amigos melómanos. Esse era o capital de risco, transformado em activo tóxico quando o vinil, após tantas e tantas audições ou infortunados maus-tratos pessoais ou alheios (sim, porque se trocavam discos, mão na mão, por períodos de tempo determinados e com pavor de que não regressassem intactos ou não regressassem de todo) desatava a encravar num risco visível a olho nu. Era o momento do "scratch" espontâneo, sem pista de dança ou habilidade técnica de DJ. O disco estava riscado. Olhar desolado e impropérios. Não se apagava da memória, não se faziam "backups", o LP ficava por ali, amputado, cerca de dez faixas menos uma se o dano nos apanhasse, pela sorte no infortúnio, apenas numa faixa. Limpar, limpar com um pano de velcro. Teria sido do plástico envolvente? Dúvida eterna, era suposto proteger. Podia ter sido do raio da agulha que já devia ter sido mudada há que tempos. Remorsos. Tentava-se de tudo. Se o risco fosse transversal nenhuma limpeza ou feitiço o salvaria. Na era analógica quem não tinha um risco era um rei.

A analogia romântica do vinil de há umas décadas ressuscita, desde há uns anos, através da música de dança e com uma fornada de artistas independentes que volta ao vinil de braço dado com o mp3. Duas eras em dois formatos para uma só obra. O antigo e o novo, o físico e a desmaterialização. E de repente, no Porto, o renascimento da gloriosa loja de discos "Tubitek" no 31 da Praça D. João I, local de peregrinação e de tertúlias à boca do balcão, a lembrar que arte da escolha consciente e da opinião formada é um dos momentos mais maravilhosos da criação artística. Encerrada há 14 anos, a reabertura da "Tubitek" pela mão de Abílio Silva e de Ricardo Salazar, com a força do nome que inteligentemente Vítor Silva permitiu manter, é muito mais do que um sinal de afectividade e inteligência. É a noção de que a música, como qualquer forma de expressão artística, tende a ser mais compreendida, admirada e partilhada fora dos espaços onde também se podem comprar pregos, batedeiras ou acessórios. Se os livros conseguiram manter algumas (boas) livrarias, porque perderam os discos quase todas as suas (boas) lojas de discos? Há ainda algum espaço para inverter esta realidade e permitir que os dois exíguos mercados de venda física de música, um generalista e outro especializado, coexistam.

O mercado discográfico vive em recessão e readaptação tardia a realidades novas, sabemos. Há uma nova geração de bibliotecários ou de arquivadores de música que, na era da gratuitidade pirata, "sacam" e têm toda a música de toda a gente mas que nunca vão conseguir "sacar" anos de vida para a ouvir. São coleccionistas de mercado, muito mais fruto do império do consumo do que da liberdade e do acesso democrático à cultura que tanto dizem defender. A fruição é gratuita mas a música, como qualquer outra arte, não cresce nas árvores e deve permitir remunerar quem a faz. O acesso à cultura não pode viver à custa do assalto aos direitos dos criadores. Ou então ergue-se um novo paradigma fascista pelo qual a arte não é nem dá trabalho. Direito ao trabalho remunerado, 25 de Abril, há memória? Ou somos todos "conteúdos"?

Em algo estaremos de acordo. A cassete, a fita. Essa finou, nada de crómio ou ferro. A cassete perdia qualidade quando ouvida vezes de mais, transformava-se numa sombra do que havia sido e irritava pela repetição dos erros. É tão válido para os formatos e suportes de música, como para as falsas uniões à esquerda ou para os treinadores demagogos, populistas e teimosos que fingem que um atropelamento por um sofisticado "panzer" alemão é um acidente de percurso e que uma laranja não mecânica foi só sumo de circunstância num dia de travo amargo. É válido para as famílias em desintegração bancária pelos erros que nenhum de nós pode voltar a pagar. É válido para os que continuam a ver no Tratado Orçamental uma peça de inamovível beleza, imutável e certa como a morte lenta a que nos conduz inapelavelmente. Não há beleza alguma na cassete quando a repetição não risca nem arrisca. Não tem visão nem romantismo, só perde qualidade. Não é um disco riscado. É um formato que já não tem futuro.

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