Opinião

# sim vai ter Costa

Hoje é o dia que António Costa escolheu para se reunir com o recém-empossado e golpista presidente do Brasil, Michel Temer. A propósito da legítima e desejável representação institucional do país nos Jogos Paralímpicos, o primeiro-ministro português anunciou um périplo de quatro dias repletos de economia e cultura mas decidiu também cimentar as relações de proximidade com o mais recente regime golpista do planeta. O processo de destituição de Dilma Rousseff decorreu na praça pública e o assalto final ao poder por Temer era de tal forma previsível que até tinha data marcada. Não se pode alegar desconhecimento ou imprevidência. E não sendo um caso de inabilidade política, o que está em causa é a vontade.

António Costa não desconhece o que qualquer agência de viagens sabe: uma viagem desmarca-se ou, mal menor, qualquer agenda se altera. Não correria nenhum risco de hipotecar os objectivos da visita pelo facto de se alterar o protocolo. Temer, após a conclusão do golpe de 31 de Agosto, procurou legitimação externa na Cimeira G-20 na China, encontrando-se com o presidente Xi Jinping, "amigo de longa data". Mas ao nem sequer diligenciar uma alteração da agenda de forma a evitar o encontro com Temer, Costa será lembrado como o primeiro chefe de Governo estrangeiro a legitimar interna e presencialmente o golpe no Brasil. Uma semana depois. E é precisamente isso que está em causa: Costa podia ter evitado mas escolheu, encolhendo-se perante o golpe.

Os critérios de oportunidade política nas relações internacionais são muitas vezes difusos, nem sempre se conseguindo discernir entre a ingerência e a equidistância, entre a prática da política interna ou externa. A questão que o encontro de Costa levanta não é a de saber se tem que haver concordância política ou ideológica nas visitas de Estado. Obviamente que não. Não é a de avaliar a - evidente - necessidade de encontrar formulações de diálogo político, cultural e comercial, institucional e diplomático, com Estados com os quais podemos concordar zero ou pouco mais do que isso. O Estado, não sendo neutral nas relações internacionais, também não pode ingerir pelo boicote ou por lições de superioridade moral face à diferença. Mas o que está em causa no encontro de Costa com Temer é a legitimação de um golpe, sem eleições e no apogeu do terrorismo ideológico, no desrespeito pelos fundamentos mais básicos de um Brasil já sem heróis políticos mas que vivia - ainda assim - a sua democracia.

#nãovaitergolpe, mas houve. Não acredito que António Costa defenda, formal ou materialmente, o golpe antidemocrático no Brasil. Porque veste assim Portugal, apressada e desnecessariamente, com uma nova "hashtag" de cunho pessoal?

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

* MÚSICO E ADVOGADO

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