Opinião

À consideração da beleza do futebol português

À consideração da beleza do futebol português

A mudança de chip que a selecção portuguesa insinuava ser capaz de operar ainda não se materializou. Decorrida a fase de qualificação e após uma bem sólida exibição no particular contra a Bélgica, a sensação era a de que tínhamos um meio-campo capaz de desatar o nó, sepultando a monotonia artística que nos coroou campeões da Europa, sem que com esse upgrade perdêssemos consistência defensiva, solidez e espírito operário. Pela qualidade dos nossos jogadores, julgava-se por antecipação que continuaríamos a fazer das nossas fraquezas força mas algo mais: esta equipa podia não ir tão longe como em 2016 mas jogaria diferente, para melhor, e poderia ser bem sucedida. Com outro brilho, nota artística, outra beleza. Apesar do melhor jogo colectivo contra o Irão, a sensação que abala é a de que dificilmente melhoraremos o tanto que precisamos para os jogos a eliminar. Talvez porque ainda hesitemos, achando que somos capazes de mudar o chip em tempo recorde. A beleza não tem idade mas tem o seu tempo. E já a seguir vem o Uruguai, uma equipa sem "eyeliner".

Alguns jornalistas em auto-análise, que se queixam de que há um Mundial que lhes está a passar ao lado à custa das denúncias e investigações judiciais que atingem o Benfica e os seus responsáveis, foram - eles mesmos - protagonistas permanentes do maior enxovalho diário a um clube de que tenho memória, à boleia de um homem e das suas circunstâncias. Durante os últimos dois meses, o pântano do futebol português chamou-se Sporting e alimentou-se do seu ex-presidente. Entretanto anunciou-se a convocatória, a preparação da selecção entrou em curso, jogaram-se três particulares e o Mundial da Rússia disparou ao ritmo de quem desmantela matrioskas em loop. E apesar da beleza do futebol continuar bela, não houve um dia em que a crise do leão ficasse alojada nas grades internas da sua jaula. Pelo contrário, alimentou finados serões "non-stop" como se de uma novela de voyeurismo espírita se tratasse. E o futebol continuava belo, porém.

Agora que, a propósito da operação "Mala Ciao", a Polícia Judiciária desenvolve mais uma investigação que envolve o Benfica e, no respeito pelo Estado de Direito, há uma multiplicidade de buscas ordenadas por um juiz, algo parece estar a impedir alguns daqueles que alugaram cadeira de orquestra para a crise leonina de poder desfrutar da tão terna beleza do futebol, à conta do "ambiente irrespirável que se vive no futebol português". Vão medindo as tensões ao drama, é um belo jogo colectivo. Estimo as melhoras.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

* MÚSICO E JURISTA

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