Cimento líquido

A doença do Infarmed

Consegue imaginar um país sem cura ou ponta de vergonha, onde a verdade cinco vezes repetida no púlpito da casa da democracia vira, dez meses depois, dito por não dito? Um país doente por desculpabilizar o centralismo à pala da descentralização?

Pois esse país é este e insiste na sua pacóvia lógica de funil. O que mais assombra no patético processo de deslocalização falhada do Infarmed para a cidade do Porto não é a mentira ou o processo de conveniente tratamento placebo com que o Governo resolveu medicar a história. O que mais choca é a insistência na doença. A falta de carácter e de coragem. É inultrapassável esta doença fétida do centralismo, distintiva de um país que ainda não conseguiu ultrapassar os seus complexos de décadas em ditadura. A tacanhez macrocéfala é algo que a descentralização não cuida nem cuidará de curar. A descentralização é este animal moribundo que vemos, este que nos querem vender como divisão territorial em paridade para um país que só com a regionalização pegará o seu destino pelos cornos.

Como um ignóbil acórdão. A doença da sedução não foi mútua: a cidade do Porto nunca pediu nada e muito menos o Infarmed. O Porto, após a decisão do Conselho de Ministros, preparou-se e passou a conviver com a ideia de que, finalmente, o país dava um sinal de coesão. Foi a ideia de um início que a cidade do Porto abraçou. Terá tido essa a sua ilusão. E é por isso que esta violação sem consentimento não precisa de violência explícita para ser violenta. O Governo colocou a cidade do Porto e o país, durante estes dez meses em que trocou toda a cor das tintas, na posição de um ser feito coisa, ser objecto ao qual vergaram a vontade que entretanto assumira, vítima em estado de inconsciência pela impossibilidade de resistir ao final anunciado. Ao Porto criaram a imagem fraudulenta de um país um pouco menos doente. Mas ficou claro que o país, enquanto referencial de território e de gente, continua nos cuidados intensivos, ligado às máquinas e aos aparelhos de algo a que insistem chamar de Estado.

O lado anedótico desta patranha não faz dos seus responsáveis políticos, amadores. O relatório do grupo de trabalho foi conclusivo: o Infarmed ficaria melhor no Porto, onde ganharia eficiência e seria, a curto prazo, mais barato para o país. A "avaliação técnica e científica rigorosa" que o Ministro da Saúde tanto pediu foi dada e foi clara, aconselhando a transferência. Os responsáveis políticos deste processo não são amadores, são profissionais. Profissionais de Lisboa como seriam de outra qualquer capital que se alimentasse desta doença.

MÚSICO E ADVOGADO

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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