Opinião

A salivar por Robles

A salivar por Robles

Ricardo Robles demorou pouco mais de 48 horas a fazer o que tinha que ser feito e demitiu-se. Apesar de não ter cometido nenhuma ilegalidade, as contradições entre o discurso e a prática eram demasiado evidentes, obviamente insanáveis com a agenda política do BE e com o seu próprio discurso político pessoal. Boa parte da Direita portuguesa, não habituada a tamanha vertigem de moralidade nas decisões, deve ter duvidado do fuso horário de Lisboa. O desvario persecutório e revanchista do CDS e de parte do PSD foi ao rubro pelo passo em falso do vereador Robles.

Pelo esbugalhar dos olhos, percebia-se que chegara agora o momento de encostar à parede quem, em termos de contradições insanáveis, ainda não viu os seus máximos dirigentes ou deputados rumarem à Goldman Sachs depois de lidar com a crise financeira na Comissão Europeia ou ministros a assessorarem a Arrow Global em decisões de risco financeiro logo após a queda do Governo. Gente que, talvez por não ter sido contaminada pelo bafo do poder, não teve a oportunidade de testar os seus limites de moralidade humana no bas-fond de submarinos ou em paraísos fiscais. Que não teve ainda a oportunidade de prestar contas, sem pingo de vergonha, em comissões parlamentares. Gente que não girou nas dezenas de portas giratórias onde costumam girar dezenas de dirigentes e quadros. Mesmo na Concelhia de Lisboa e arredores, criticam um partido que não alberga racistas, homofóbicos ou saudosos do antigo regime como dirigentes. Mas era sobre a moral que falavam. Que moral tem a Direita portuguesa para apontar o dedo a um caso individual onde existe uma evidente contradição sem que exista uma qualquer evidente ilegalidade? Sobre a saliva e a espuma.

A ideia de os homens e mulheres de Esquerda terem que se arrastar como espécies infra-humanas no limiar da subsistência para não ferir os seus ideais, faz parte do antigo testamento que os levará, um dia, a comer criancinhas ao pequeno-almoço. Ou à vergonha de ver a vida privada do deputado António Filipe devassada porque recorreu ao sector privado da saúde. Não será por acaso que veneram grandes especuladores e se atiraram a Robles como cães por ter feito um investimento. Antes partiram todos os espelhos lá em casa. Resolvam-se. Agora que já despejaram o escárnio, venha de lá esse ódio barato. Não me parece que os portugueses gostem mais de políticos que cometem ilegalidades do que de políticos incoerentes. Por mais que salivem.

(O autor escreve segundo a antiga ortografia.)

* MÚSICO E JURSTA

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