Cimento líquido

A nada Serena Williams

Use o nome próprio ou de família, há algo que Serena Williams conseguiu com a destreza de um match-point com pinta de ás: fazer da raquete um boomerang. Para si, para o ténis e seus árbitros, para a portugalidade, para a cor das raças e para o peso do género, para as associações de trincheira, para os cartoonistas. Nada sereno. Ao perder vários jogos e após diferentes avisos, a atitude de raiva incontida da jogadora não pode encontrar explicação no eventual machismo ou racismo do árbitro português Carlos Ramos. As regras e sua eventual aplicação discricionária podem debater-se lá dentro ou a bater bolas cá fora. Mas a inflexibilidade do juiz é só uma aparência conveniente quando, ao discutir uma falta, se levantam juízos. Convenhamos que a regra para apanhar racistas e sexistas não se esgota num ponto.

Serena não deixou de o ser porque aquele pezinho maroto pisou uma linha indevida e toda uma história de discriminação racial e segregação pela cor lhe brotou à boca, como se tomada abruptamente pelo espírito de Rosa Parks. Serena não deixou de o ser porque, ao comunicar irregularmente com o seu treinador, toda uma história de luta pela igualdade das mulheres e paridade de direitos lhe aflorou ao coração, como se o espírito de Naomi Parker Fraley, em abatimento súbito no court, lhe tomasse o corpo. Apelidando o árbitro de "ladrão", Serena Williams disse o que disse e fez o que fez porque estava a perder um jogo que não queria perder. Descontrolou-se e não pela primeira vez. Questões espíritas no ténis ou reais em sociedade - as das luta contra a desigualdade onde quer que ela assome - resolvem-se em fóruns onde Williams tem sido bem mais Serena. Triste é que vejamos tanta gente, inflexível, a querer receber o boomerang em mãos, tomando as dores de quem abandonou a raquete para fazer uma bandeira. Que, quando muito, é só a bandeira do seu jogo.

A inflexibilidade até é, de resto, uma bandeira transversal que a maioria dos políticos esconde sob a capa do diálogo. O PSD não está sereno no jogo. Goste-se mais ou menos de Rui Rio, há algo que parece inegável, ainda que possa ser só mais uma das aparência inconvenientes para um partido fracturado. Rio não usa o habitual jargão do politicamente correcto, como se percebe pela forma como comentou (e bem) a medida do BE para penalizar as operações especulativas no imobiliário ou na recente entrevista ao "Bloco Central" da TSF. E isso introduz uma ideia de confiança no senso do homem comum que é rara. Contra Rio, há um PSD a quem ser social-democrata dói. Continuam a bater bolas à rede, numa agitação.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*MÚSICO E JURISTA