Opinião

Transporte para a realidade

Quando a falta de vergonha ameaçava ganhar contornos históricos com a anunciada nomeação de Vítor Pataco para a liderança do IPDJ pela mão "socialista-apparatchik" do secretário de Estado João Paulo Rebelo, eis que o início do fim do esplendor da realidade alternativa pode ter começado. Depois do notável exercício de contorcionismo em que a direcção do Benfica se envolveu, negando a existência ou veracidade de toneladas de mails que se cruzam entre si, contradizendo a existência de claques que nunca abdicaram de se apoiar no seu clube durante anos a fio sem cumprir as exigências da Lei, chega o momento em que a Justiça não estende ao clube a última bandeja de salvação: retirar o Benfica da equação para que deixasse cair Paulo Gonçalves, fingindo que não era o assessor jurídico da SAD e o braço-direito de Luís Filipe Vieira (que, de resto, representava incontáveis vezes nas mais altas instâncias do futebol nacional e internacional). A valorização e defesa que o Benfica sempre fez do seu braço-direito não permite a desvalorização do membro. Para o futuro, resta a dúvida: para quantos mais magistrados judiciais pedirá o Benfica a destituição, até que caia na real sem alternativa?

Aderir à realidade é coisa importante tanto no futebol como na política. Mas a demagogia tem sempre a certeza do seu tempo. A súbita fixação do CDS pelos transportes públicos, por exemplo, não era tão pungente e decidida enquanto partido do táxi, parceiro de coligação governamental ou quando, no ano passado, Assunção Cristas se candidatava à capital. Nas últimas eleições autárquicas, recordamos sem tremer como a líder do CDS exigia mais 20 estações de metro para a cidade de Lisboa (coisa para 2000 milhões de euros), certamente pouco alerta para a coesão territorial dum interior português sem metro ou centímetros de viabilidade. Ou o tempo de coligação com o PSD de Passos Coelho, aumentando brutalmente os preços, defendendo as concessões a privados e decepando as carreiras existentes. Ou ainda, recentemente, com as notáveis viagens-visita na CP, sustentando a privatização do longo curso.

Mais cedo ou mais tarde, impõe-se uma decisão estratégica: ou o CDS deixa de criticar a falta de investimento do Estado na CP ou se abstém de criticar o investimento do Estado na mobilidade e rede de transportes. Porque, como salientou o ministro do Ambiente, Matos Fernandes, a opção é a de alargar o desconto dos passes sociais a todo o país. Ainda que seja difícil instalar 20 estações de metro distribuídas por cada capital de distrito, é coisa para valer a pena do ponto de vista da coesão.

O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico

MÚSICO E ADVOGADO