Cimento líquido

"Bambi", disse ele

No momento em que o leitor se junta às primeiras palavras deste texto, é possível que sinta a tentação de desviar o olhar para a janela ou para uma estrada ou praça nas imediações, à procura de camionistas e skinheads vestidos com um colete amarelo. É assim mesmo, bom Natal. Não há como negar: a quadra natalícia já não se compadece com plantas de azevinho monoicas, as flores não se diferenciam pela anatomia do crime e os frutos são um verdadeiro problema. Saber vestir um colete amarelo, sem cuidar de saber se é Revolução ou Reação, Abril ou Novembro ambos a 25. É o Diabo em má altura. Vivemos tempos confusos mas, desenganem-se, estes de hoje não são "fake news". Atenção, eles andam aí.

A mera hipótese de não ver o "Sozinho em casa" na quadra natalícia, assemelha-se a um intenso quadro de horror. Tiram-nos isso, tiram-nos quase tudo. Não é que alguém veja, mas como é bom olhar a programação das televisões e confirmar que ele lá está. Pois este é o ano em que a Google convidou Macaulay Culkin, o para-sempre-miúdo da década de 90, a refazer algumas cenas do filme que há 28 anos o lançou para a ribalta e para a destruição. Se dúvidas houvesse que a Google quer mesmo acabar com isto tudo, dissipam-se. Refém da sua própria personagem em sua própria casa em todos os natais, o actor vai ser desacorrentado do passado por um motor de busca, destruindo o acerto da programação televisiva dos anos vindouros. Gerações comprometidas, sem comprometimento. A náusea com um fim à vista. É todo um imaginário que já não virá de trenó, velho como as barbas. Não poderão voltar a chamar a isto Natal.

É como nos contos, vão ficando gastos se não lhes injetarmos doses de realidade. Um juiz do Missouri condenou um caçador furtivo de centenas de veados, atirador durante anos a fio, à pena de um ano de prisão e ao visionamento mensal de "Bambi", o velho clássico de animação da Walt Disney em que a mãe do personagem-veado é morta por caçadores. Para mim, que vi o filme no Teatro S. João, no Porto, quando a minha tenra idade estava mais permeável do que nunca a desatar a chorar pelas agruras familiares de desenhos animados, esta decisão judicial enche-me de apinhado júbilo. Enorme é o juiz que devolve uma nova infância a um criminoso. Assim se preserva o futuro e o tempo que não viveu. Como a notícia que nos chegou do País de Gales onde Ken, antes da sua morte aos 90 anos, ainda encontrou tempo para comprar mais de uma dezena de prendas para a próxima dezena de natais de Cadi Williams, miúda de dois anos e sua vizinha, que adorava. Após receber, inesperada e comovidamente, o saco de prendas-herança, compete à família Williams continuar a injetar realidade ao conto. Acredito que foi para isso que se fez o Natal.

*Músico e jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia