Cimento Líquido

Cuecas, ganga e mocassins

Cuecas, ganga e mocassins

A insubstituível riqueza das redes sociais e da informação ao minuto é um presente, até no tempo verbal. E sem qualquer "delay". Para poucos minutos depois, dista apenas uma questão de segundos. Acção, reacção. A velocidade a que o país dos costumes se vestiu de ultraje pelo uso das calças de ganga e mocassins por António Costa aquando da visita oficial a Angola, explica-se facilmente pelo vício do politicamente correcto e pela urgência da crítica com pressa, sem curar do novelo, atenta às pontas. E assim vamos nas franjas, com mais ou menos nervo, sem os nervos em franja porque desatamos a descarregar em escárnio, gozamos pelo girar do prato e logo partimos para outra. Hoje, tudo é viral para um grupo de pessoas que se lê e ouve entre si, uma espécie de clube público de amigos de corte e costura. Mas não passa disso, somos muitos de nós em circuito fechado. No fim da história, Costa apenas usou calças de ganga e mocassins porque foi apanhado desprevenido. Cerimónia para o que te quero quando os serviços de protocolo não fazem o seu trabalho, antecipando as solenes alas militares. A formalidade foi-se, e foi-se assim, mal informada.

Bondade. A informalidade já não tem segredos. Muitos dos que se atiraram a Costa pela forma indigna como deambulou na passadeira vermelha de Luanda na companhia do ministro-dos-negócios-estrangeiros-angolano-em-fato-completo, são os mesmos que vibram com o presidente Marcelo em modo selfie, enternecendo-se com a sua disponibilidade para ser um comum entre os mortais, como se o compasso nascesse com todos os sóis para ser beijado em procissões diárias. Das palavras aos actos. Muitos dos que toleram o desgaste de Marcelo são alguns dos que acham que a ganga de Costa está gasta. Longe vai o tempo em que, na sede do PSD e após um acidente que lhe encharcou as calças, Marcelo recebia o embaixador do Irão em cuecas, peúgas, camisa e casaco, sentado atrás de uma secretária após as alegações de portugalidade e seus costumes por José Luís Arnaut. Se fosse hoje. Os tempos que hoje correm obrigariam a outro par de calças já que, para a crítica jet-set, tanta informalidade não se aguenta. Mas consta que nunca caíram as vestes a Marcelo por uma simples "gaffe". E ainda bem.

O modelo de leitura dos dias bem que podia prescindir das classes e dos toques de campainha. Abdicar de tantos sinais de alerta. "A aprendizagem é antropofágica. Não se aprende o que o outro diz, apreendemos o outro", sustenta o educador José Pacheco. Seríamos bem mais serenos. Para não confundir o dito com as calças.

(Este "Cimento Líquido" mudou de dia. Passamos a encontrar-nos por aqui às sextas-feiras, por troca com Francisco Seixas da Costa, que lerão nas quartas-feiras. Assim, até à próxima sexta-feira)

O autor escreve segundo a antiga ortografia

* MÚSICO E JURISTA

ver mais vídeos