Cimento líquido

O peso deste Brasil

A satisfação efusiva com que Jair Bolsonaro recebeu Orban ou Netanyahu, dois dos mais extremistas líderes da comunidade internacional, dizem muito sobre o clima no qual o novo presidente do Brasil se aquece e inspira para poder fazer do seu país um exemplo à sua medida, enquanto o redentor Cristo esfrega um olho.

Após os meses em banho-maria que intervalaram as eleições presidenciais e a tomada de posse, as primeiras 24 horas de Bolsonaro foram um hino à triste evidência: o aumento do salário mínimo retrocedeu, atacou pessoas por pertencerem à comunidade LGBT, decretou a morte do Ministério da Cultura, usurpou terra indígena e quilombola (de afrodescendentes que fugiram à escravatura). Colocou sob suspeita toda a rede de ONG, ameaçando-a com intervencionismo e boicotes. Na procura do unanimismo, promete rever toda a estrutura da administração pública, demitindo funcionários que defendam ideias contrárias às suas ou de inspiração socialista ou comunista. O empossado presidente do Brasil não se limitou a fazer o mais deprimente discurso-bandido de uma tomada de posse. Na sua luta primária contra quem pensa diferente num país dividido a meio, arma-se em Messias mas esquece-se que sucede a Temer, presidente do Brasil durante dois anos e meio.

A atitude eleitoralista e demagógica de Bolsonaro não desaparecerá com as eleições. Tal como Trump, Bolsonaro não imagina uma vida sem afronta ou divisionismo, mesmo no seu dia 1. Para personagens como estes, a infelicidade de ser presidente é que só poderão voltar a ser candidatos alguns anos depois. E viverão durante o mandato para o regozijo de se poderem ver ao espelho pela imagem de outros personagens menores a quem dão a mão, como aquele seu correligionário que berra o juramento em pose hirta de militar em ditadura. Constrói-se no Brasil um muro de divisionismo semelhante àquele que faz parar a administração norte-americana enquanto os democratas não derem luz verde à edificação do muro com o México. Imagino que seja ainda mais difícil saltar um muro dentro do próprio país.

A vassoura é uma arma. A caça às bruxas e as saudades do macartismo invadiram o Brasil enquanto Bolsonaro arrasta a vassoura para purgar a casa, limpando de funções quem foi indicado durante a gestão de Lula ou Dilma Rousseff. Omite ostensivamente do seu discurso as referências à eliminação das desigualdades, elevando tweets extremistas a discurso de Estado, promovendo os seus slogans de campanha pelos coelhos reaccionários que repetidamente saca da cartola. Preso aos evangelistas e ao seu mundo a preto e branco, Bolsonaro é o que é: um diabo na cruz que o Brasil carregará, obrigando todo o mundo a sentir o seu peso.

MÚSICO E ADVOGADO, o autor escreve segundo a antiga ortografia

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