Opinião

Ultrapassar pela Esquerda

Ultrapassar pela Esquerda

A meia dúzia de dias das eleições europeias seria bom que o discurso político fosse mais claro e transparente. Pedir a reestruturação da dívida não é algo utópico, impossível ou irrazoável: pelo contrário, utópico e quase criminoso é pensar que a economia pode crescer sustentadamente sem que essa reestruturação exista.

A não ser que o voto de pobreza seja uma figura de estilo em franca recuperação histórica. Ao futuro de Portugal não se brinda com o "champagne de estalo" de Nuno Melo numa "mise en scène" bem reveladora do estado a que chegou esta falta de sentido do Estado. "Se não tiveres nojo, podes beber", disse Nuno a Paulo em Lamego, estendendo-lhe a garrafa. Os portugueses não ficaram ébrios pela falta de nojo do coligado Paulo Rangel, após alguns goles. Afinal, "isto é uma coligação", retorquiu Rangel. Ficaram atónitos, gelados e sóbrios até dia 25, espero. Sobriedade, pelo menos, exige-se.

Brindar a quê e porquê, então? Ao puxão de orelhas dos credores que - mal vêem que a troika foi de fim-de-semana a casa - se multiplicam em avisos para nos continuarmos a comportar como um país ocupado, sob ameaça de um programa cautelar ou de um segundo resgate? Ao Tratado Orçamental (TO) que nos impõe limites de défice (5%) e de dívida pública (60%) que são impossíveis de cumprir para Portugal e para outros países da "periferia" europeia? Ao TO que fuzila sem piedade o Estado social em períodos de recessão e que atribui à Comissão Europeia o poder de impor sanções e políticas macroeconómicas aos países não cumpridores das suas metas irrazoáveis? Quanto mais tempo sob o jugo dos especuladores? Quanto mais tempo para que esta batalha pelas coisas óbvias seja ganha? Este TO nada mais é do que um novo memorando da troika, um segundo "take", após simulação de saída: coage-nos a metas impossíveis para continuar a impor a austeridade e já devia ter sido referendado. Como escrevia Bertold Brecht, "que tempos são estes, em que é necessário defender o óbvio?".

A Grécia tem sido, ultimamente, um espelho do que Portugal vai ser, numa espécie de viagem ao futuro com o carimbo da Antiguidade. Atentemos na desagregação grega, com uma taxa de desemprego de mais de 26%, com o desmantelamento do seu sistema de saúde público: na linha de partida, onde as mulheres não saem dos hospitais após darem à luz porque não conseguem pagar as taxas dos hospitais; na linha de chegada, onde se recusa o tratamento e cuidados de saúde a doentes terminais com mais de 75 anos; na linha do caminho, onde se encerram centros de saúde com as pessoas lá dentro e onde não há direito a assistência hospitalar para quem está desempregado. Na Grécia já é possível fazer girar o Mundo ao contrário.

É claro que a resposta também pode estar no voto. Nas eleições municipais/regionais gregas de domingo passado, o Syriza foi o partido mais votado em Ática (a mais populosa região da Grécia, que incorpora Atenas) onde se encontram cerca de um terço dos dez milhões de eleitores do país. Para além da fragilização dos partidos do denominado "arco da governação" (a Nova Democracia e o PASOK), este resultado lança bases para o resultado das eleições europeias, nomeadamente pelo apoio simbólico que é dado pelo Partido da Esquerda Europeia (do qual o Bloco de Esquerda faz parte) a Alexis Tsipras na disputa pela presidência da Comissão Europeia. A derrota do Bloco Central (ou do bloqueio central) na Europa passa pelo crescimento do Partido da Esquerda Europeia, enquanto terceira força política no Parlamento. Na Europa como em Portugal, pela derrota de quem nos conduziu até aqui.

Segundo dados do Eurostat de ontem, Portugal é o país que mais emprego tem destruído na União Europeia e o único que viu a sua taxa de emprego descer continuamente na última década. Sejamos claros: a mutualização da dívida já não chega, é inevitável reestruturar. Temos, agora, mais dívida do que antes da entrada da troika. Prazos, juros e valores da dívida, tudo tem que estar em cima da mesa. Tenhamos a Alemanha como exemplo e nem queremos tanto: a sua dívida externa da I Guerra Mundial foi paga em 2010, 92 anos depois. Depois, encontrou uns amigos no Sul da Europa que financiaram o seu sistema bancário. Isso sim, foram boas razões para alguns alemães abrirem garrafas de "champagne". E para nós os ultrapassarmos, no domingo, de pé.