Opinião

Joacine em roda à Livre

Joacine em roda à Livre

Nem tudo o que parece é, mas este primeiro mês de Joacine Katar Moreira no Parlamento está a ser feito em roda à Livre.

Há uma perturbadora e prematura semelhança entre as lutas de poder neste novo Livre e as lutas de finados no PCTP-MRPP de Arnaldo Matos e Garcia Pereira. Compreende-se a necessidade de algum ajustamento à nova realidade de representação parlamentar e é evidente que um deputado único é um convite à solidão e trabalho excessivo. Mas não pode ser um passaporte para a proscrição a que parece estar a ser condenada. O surto de "fait-divers", enjoos, acusações e contra-ataques, humores, amores, desamores e haraquíris sem honra cometidos pelo Livre nesta última semana, apenas um mês após a tomada de posse na Assembleia da República, não lembra ao mais radical dos novelistas.

Joacine não tem feito a vida fácil ao seu partido, a quem nela confiou e a quem pretende sair em sua defesa. A utilização de alguma soberba ou arrogância para suster supostos ataques externos - quando a deputada tem estado sob fogo cruzado do seu próprio partido - é uma manobra de diversão que só não mente porque Joacine sente mesmo ser vítima de injustiça. E aqui mora o paradoxo: esta verdade, esta vitimização de dentes cerrados, é mais uma mostra de inadaptação e montra de desequilíbrio. Joacine não é vítima, é o produto do que bem alimentou e lhe alcandorou à eleição. Mas onde antes havia ideias, sobram agora complexos. Joacine, como refere o seu assessor Rafael Esteves Martins, "dá dinheiro e cliques aos jornais" e à comunicação social. É preciso que a representação parlamentar do Livre o perceba: fora do seu partido, ninguém a quer linchar.

Numa só semana, voto contrário ao partido sobre Israel e a causa palestiniana, falta de contacto do Grupo de Contacto, falha do prazo para apresentação de projecto-lei sobre a nacionalidade (um dos temas mais relevantes do Livre), histórias sobre invasão do gabinete por jornalista, lamentos pela falta de descanso da deputada, acompanhamento ou escolta no corredor do Parlamento por um militar da GNR. Denúncias de ataque mediático, defesa da cultura de descanso no sentido intelectual do termo, impedimentos no trabalho, acusações a jornalistas, acusações a Rui Tavares, certezas sobre golpes do partido, juras de não descartabilidade, comunicados e contra-comunicados, acusações sobre falta de camaradagem, juras de eleições ganhas em solidão sob o signo do abandono, acções do Conselho de Jurisdição e da Comissão de Ética e Arbitragem. Os eleitores do partido e de Joacine só pedem que isto pare.

O Muro das Lamentações estaria reservado para o Livre, não fossem Israel e a causa palestiniana as pancadas de Molière para todo este teatro. Joacine não é capaz de gerir a pressão interna. Não se pense, porém, que a direcção do Livre não poderia ter gerido este processo de forma diferente. Em condições normais, haveria tratamento sigiloso e maior dimensão de recato interno. O Livre não o quis fazer porque a incomodidade ganhara. A fulanização e personalização excessiva cultivada por Joacine eram já insustentáveis. Algo contranatura, mesmo para um partido fundado nestas mesmas raízes. Joacine não inventou a roda.

*Músico e jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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