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Opinião

Lutar na lama sem ir ao tapete

Lutar na lama sem ir ao tapete

Chegado ao momento crítico, onde a linha se coloca intransponível ou se ultrapassa, homens e mulheres têm a oportunidade de tomar decisões que os definem.

No imediato e, salvo esquecimento, que as acompanham para sempre. Haverá quem tenha a coragem de não ultrapassar o limite, por absoluto respeito aos princípios, ou de o pisar com parcimónia para de imediato volver. Outros optarão por ir directo à lama, sem duvidar que é território fértil para granjear apoios ou abusar do mais básico e rudimentar exercício de defesa a qualquer custo. Mentira, violência, demagogia ou engodo, formas distintas e eficazes de lutar na lama sem ir ao tapete.

A icónica violência teatral do debate entre Francisco Rodrigues dos Santos e André Ventura, colírio delirante de frases pré-feitas por assessores dedicados e debitadas com o orgulho de quem sabe que vai produzir um sound-byte, criou um efeito transversal (da Esquerda à Direita) de aplauso retumbante, misto de vingança e vendeta, pela forma como o líder do CDS-PP enfrentou o rosto da extrema-direita com a boca numa loja de horrores, os olhos em Fátima e a alma tomada por Che Guevara. Com isso, entrou no território de lama que Ventura tão bem habita como animal (político) que é e desceu ao nível que lhe permitiu sovar o adversário, sem qualquer espécie de vergonha, em sucessivos "rounds".

É difícil resistir ao ímpeto do abraço. Com essa humildade híbrida, católica e protoconservadora, Francisco pode ter acrescentado mais uns pós percentuais à votação de dia 30, invertendo o previsível desaparecimento do seu partido. Talvez o tenha salvo do ocaso, assumindo-se assim, marialva e de peito feito. Talvez tenha retirado alguns pontos percentuais ao retrocesso civilizacional que o Chega representa, recebendo alguns dos seus ex-militantes de volta. Talvez tenho exposto, como ninguém, as fragilidades, mentiras, contradições e a falta de noção de Ventura. Sabemos que, se o CDS desaparecer, "we will always have Chicão", como se fosse Bogart por 25 minutos mas uma memória para a vida. Para sempre a frase: "um esquadrão de cavalaria à desfilada na sua cabeça não esbarra contra uma ideia". A lama não enobrece mas, contra o Salvini dos pobres, teceu encómios.

Porque há vida para além dos debates, António Ramalho continua a ser o presidente executivo do Novo Banco, mesmo quando o BCE investiga a relação entre ambos. Mesmo quando se soube que o responsável pela recuperação do Novo Banco se reuniu com Luís Filipe Vieira, com o intuito de preparar a apresentação deste último na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) onde, dias depois, o ex-presidente do Benfica declararia que pouco mais se lembrava do que ter um palheiro. Eis a idoneidade de quem é acusado pelo Inspector Tributário (na operação "Cartão Vermelho") de ter concertado posições com um dos maiores devedores do Novo Banco ou de querer preparar pessoas para serem monocórdicas e chatas na CPI para que "os gajos" não percebam nada do que elas vão dizer. António Ramalho, jogando na lama, sem pudor e, estranhamente, sem que ninguém o leve ao tapete apesar da indignação de alguma oposição à Esquerda.

o autor escreve segundo a antiga ortografia

*Músico e jurista

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