Opinião

Menos silêncios, mais clareza

Menos silêncios, mais clareza

Quebrar o silêncio é uma manobra arriscada para António Costa. A gestão do emudecimento implica que, uma ou outra vez, o silêncio tenha de ser quebrado, correndo riscos, não fosse a gestão da crise uma arte de conciliar forças opostas.

Fugir ao confronto pode não ser uma especialidade, mas é, neste momento, a forma mais hábil de passar entre os pingos da chuva, aquela que se abaterá sobre tudo aquilo em que Costa mexa até 31 de Janeiro, eleições antecipadas que o conduzirão, previsivelmente, a um novo ciclo de poder. A narrativa da "culpa dos outros" seria inabalável se a perpetuação do exercício de vitimização pelo silêncio fosse possível.

Recentes estudos de opinião revelam que boa parte dos portugueses distribuem a responsabilidade do chumbo orçamental pelo espectro político, apontando o papel do Governo e do PS como principal motor da crise. Um privilégio inesperado de entendimento popular de que o primeiro-ministro não estaria à espera. Se dúvidas houvesse, esta percepção torna-se evidente quando António Costa tem de falar. Na mais recente entrevista à RTP, assumiu que numa eventual votação do Orçamento na especialidade não teria mudado nada das suas posições, não resistiu a dirigir o olhar por diversas vezes para a câmara, plástica e enfaticamente, pedindo de forma reiterada uma maioria absoluta travestida de "condições de estabilidade duradoura", e não fechou a porta a entendimentos com o PSD. Rui Rio, diligentemente, apressou-se a assumir disponibilidade para negociar. Esta deverá ser a mensagem de BE e PCP. Não só a vontade de Costa em provocar uma crise política se tornou agora evidente, como se percebe que será o voto útil à Esquerda do PS o único que poderá destruir este namoro político pelo Bloco Central. Uma guinada à Direita de um futuro Governo do PS é o fantasma ou diabo político que a Esquerda terá de saber agitar.

Temos vivido tempos excitantes desde o fim da PàF de Passos Coelho sem que o Diabo tenha aparecido. Agora que os passistas voltam a tentar assomar ao poder no PSD, é bom recordar que, desde 2015, tivemos um conjunto extraordinário de "cinco primeiras vezes" que fizeram migrar a política portuguesa para longe do marasmo das soluções de sempre: a maturidade e compreensão da democracia parlamentar permitiu um Governo resultado de maiorias sem o partido mais votado, o "arco da governação" abriu, o entendimento à Esquerda aconteceu (com e sem acordos escritos), a longevidade de um Governo minoritário bateu recordes (seis anos, quando António Guterres só tinha conseguido chegar aos quatro) e fabricou-se um chumbo orçamental inaudito. Teremos, agora e previsivelmente, uma sexta primeira vez: eleições antecipadas que serão ganhas pelo partido no poder. Num país onde todas as eleições antecipadas caíram nas mãos das forças políticas na Oposição, os entendimentos à Esquerda foram e poderão ser, uma vez mais, a solução popular para mais um período de governabilidade. Assim caiam os silêncios, à luz da transparência e da clareza nas intenções.

o autor escreve segundo a antiga ortografia

*Músico e jurista

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