Opinião

No micropaís de Cavaco

No micropaís de Cavaco

Soa o gongo dos 50 dias e Cavaco Silva aproveita a manhã para colocar seis dúvidas partidário-existenciais a António Costa. 50 dias depois daquelas eleições legislativas em que todas as hipóteses possíveis de resultado já haviam sido previstas e antecipadas pelo presidente dias largos antes dos portugueses votarem em urna, Cavaco Silva ainda não conseguiu descolar das dúvidas que o assombram. 50 dias depois do voto, 33 dias depois da indigitação de Passos Coelho, 14 dias depois do Governo de Passos e Portas cair como se previa, alguns dias depois de ouvir todos os que lhe interessava ouvir à excepção do Conselho de Estado, o presidente ainda tem as dúvidas que dizia nunca ter e ainda não conseguiu perceber o alcance e dimensão dos acordos à esquerda. Palavras do próprio. Se no passado raramente tinha dúvidas, agora navega num mar delas. Se no passado nunca se enganava, agora percebe-se que um homem de pensamento único se pode sentir enganado quando confrontado com a diversidade de opiniões que abomina. Só aí. De resto, continua seguro de que nunca se engana.

Tem de haver tempo para o exercício da democracia e, como tal, sempre sustentei a solução de que Cavaco Silva deveria indigitar Passos Coelho para que o Parlamento resolvesse - em sede própria, pelo sistema e lógica da vontade parlamentar emanada do voto - o futuro do país. Nem que fosse por essa mesmíssima razão, Cavaco já deveria ter indigitado António Costa. Para uma leitura limpa da Constituição, sem pressas, sem sofismas, sem tradições. Sem misturas, passo a passo, pela democracia feita no seu tempo. Neste momento, a hora para o exercício da democracia já foi em muito ultrapassada porque, pura e simplesmente, o presidente quis parar o relógio. Emperrado, inerte pela incapacidade de conceber a existência de pessoas que, não pensando como ele, até se podem enganar e ter dúvidas por algumas vezes. Ao olhar para o seu relógio parado, enquanto não indigitar António Costa, assistimos a Cavaco Silva a tentar levar a água ao moinho do micropaís que o habita.

Num momento em que todos desconfiam de toda a gente que passou e em que toda a gente suspeita do próximo que há-de vir, importará clarificar que não me parece um caso de desonestidade material. Aliás, sobre essa estirpe, Cavaco Silva foi bem claro na campanha para as eleições presidenciais em 2011, num debate com Defensor Moura: "para serem mais honestos que eu têm de nascer duas vezes", assegurava. Subjectivamente, nada contra. Cavaco Silva pode considerar que há proscritos para o exercício do poder, concepções ideológicas que escapam à lógica do bolo-rei, momentos de descontração nas ilhas que convoquem o tamanho das bananas endémicas enquanto o país se resolve e ele não resolve o país. Mas, objectivamente, Cavaco Silva é presidente da República. E, nessa função, não deveria permitir que pensem dele o que ele pensa de muitos: que deveria haver gente proscrita para o exercício dos mais altos cargos do Estado, objectivamente, em razão das suas subjectivas concepções ideológicas.

Há micronações que não constam do mapa do Mundo tal e qual o conhecemos. Países com gente, território e fronteiras, bandeira e moeda, Governo, até com clubes de futebol a competir em campeonatos nacionais. Como o "El Pais" e o "Observador" noticiaram, não podem ser parte integrante da ONU e devem a sua existência "oculta" à Conferência Internacional dos Estados Americanos de 1933 em Montevideu. É certo que dos 193 países que a ONU reconhece, não constam os nomes sonoros da Palestina, Hong Kong ou do Vaticano. Mas para além destes, outros há que nem no mapa-mundo: os países ditos invisíveis, as micronações, países com nome impossíveis de memorizar, interesses particulares e costumes próprios, famílias ou interesses, benignos ou assim-assim, tradicionais ou com dispersas hipóteses de futuro. O micropaís do presidente da República, aquele que habita dentro de si, aquele que inclui as suas recordações de primeiro-ministro em governo de gestão, também não consta do mapa. Por mais que ele queira, acredite, tenha dúvidas e não se engane, por mais que demore a dar corda a um relógio que preferia ver parado, Cavaco Silva terá de nascer duas vezes para ver esse país ser o nosso.

, MÚSICO E ADVOGADO

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG