Opinião

No perder é que está o ganho

No perder é que está o ganho

Muitas das forças partidárias abordam as eleições autárquicas como o terreno mais fértil para a apresentação de desculpas de mau perdedor.

Se em eleições legislativas ou europeias é bem mais difícil transformar derrotas em vitórias ou camuflar resultados que têm, necessariamente, uma leitura percentual e agregada, na contabilização das autarquias o limite é a imaginação. Hoje que termina a campanha eleitoral, nas gavetas das sedes partidárias encontram-se já escritas todas as reflexões possíveis e imaginárias para o manual de sobrevivência política pós-autárquicas.

Está nas contas que o PS conta ganhar as eleições, perdendo câmaras. Talvez por isso assistamos ao frenesim de António Costa, a percorrer o país com tal grau de afinco que não deixa sombras ou dúvidas sobre a vontade de não perder muito do poder conquistado há quatro anos. A possibilidade de perder Coimbra, Funchal ou parte dos Açores (para o PSD), Almada e Barreiro (para a CDU) ou a Figueira da Foz para Santana Lopes, a concretizar-se, transformaria a noite eleitoral socialista numa festa sem luzes. Só eventuais vitórias em Viseu, Alcácer do Sal e Portalegre poderiam dar nota de tempero, salgando uma vitória globalmente anunciada. Mesmo quando há 30 câmaras do PS em que os actuais presidentes não vão a votos, dificilmente assistiremos a um "all-in" de derrotas socialistas no próximo domingo. No entanto, a cada vez que Costa profere "PRR", nasce uma dúvida eleitoral. Há um claro atrevimento no apelo ao "Plano de Recuperação e Resiliência" no debate autárquico e, nesse particular, António Costa tem sido desnecessário e abusivo.

Rui Rio perderá mais uma eleição nacional na liderança do PSD mas a forma como tem vindo a esvaziar o saco das expectativas impede a hipótese de ser declarado vencido. De resto, nada que Rio não tenha aflorado: só se obtiver o mesmo resultado de 2017 ou se conseguir, apenas, um pouco mais do que esse desastroso resultado, poderemos vê-lo a colocar-se numa posição de incerteza até à próxima eleição interna. O PSD tem mais coligações à Direita do que nas anteriores autárquicas e apostou em alguns candidatos que não honram a memória dos bustos que veneram na São Caetano à Lapa, pelo que Paulo Rangel e Miguel Pinto Luz não conseguirão contar as espingardas antes de Rui Rio contabilizar capitais de distrito.

Votar para baralhar e dar de novo é um sentimento fatal que percorre PS e PSD. Apesar da luta eleitoral ter novos protagonistas e potenciais factores de desequilíbrio, tudo seguirá como dantes num país autárquico à beira-mar plantado que se esqueceu do seu interior.

*Músico e jurista

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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