Opinião

O triunfo das vespas

Foi necessário encerrar os jardins da Quinta das Conchas e dos Lilases (Lumiar, Lisboa, Portugal) para que os noticiários em horário nobre crescessem em espectacularidade na informação que nos prestavam sobre a vida animal.

Foi preciso esperar paciente pelo penúltimo dia de agosto de 2019, para que uma pequena parte do país fosse informado, à laia de alerta, de algo que grande parte do país já viu com os próprios olhos desde 2017, avistado que foi pela primeira vez em 2011 (Viana do Castelo, Portugal). Foi preciso que as distintas vespas chegassem a Lisboa para serem notícia de noticiário com direito a reportagem e análise, comentário especializado e alertas sucessivos durante todo o dia. Tivessem sido expeditos os cérebros, reactivas as acções, e um renascido Orson Welles poderia ter brotado com a nova realidade, qual a moderna "Guerra dos Mundos" anunciando a invasão asiática com todo o mel dos favos secos e o fim da paz pública tal como a conhecemos. Oito anos. Num país onde se contam cerca de 35 mil casos descritos, foram precisos oito anos para que a realidade invadisse as notícias com parangonas à custa da destruição de um dos quatro ninhos de vespas-asiáticas reportados em Lisboa, Portugal.

Desconheço se os franceses trataram de forma tão pungente e cosmopolita o súbito e iniciático aparecimento das vespas-asiáticas pelo porto de Bordéus, França, no ano de 2004. Não sei como Paris, França, terá noticiado com bom rigor o que, sabe-se actualmente, seria um início de uma catástrofe, agora que chegou à capital de Portugal. Em 2006, eram já 223 os ninhos das vespas-velutinas instalados em território francês. Quero imaginar que os franceses não atribuíram dignidade à notícia dos pequenos invasores apenas quando os medonhos insectos se acercaram da capital de França, Paris. Provenientes de um carregamento de bonsai oriundo da China, reza a probabilidade, fazem agora história em Portugal com a lembrança do que George Orwell, outro alarmista que inspira o título destas linhas, escrevia em tempos: "Ver aquilo que temos diante do nariz requer uma luta constante". Foi preciso ver para crer nas notícias de Lisboa, Portugal, nesta luta de fim de agosto, 2019.

Um amplo debate (com decisões) sobre os temas da descentralização, regionalização ou autonomia será fundamental para salvar Lisboa desta doença patética de centralismo que, permanentemente, lhe querem colar ao peito. Imagino como os cidadãos de Lisboa estão fartos do umbiguismo central do qual não conseguem descolar pelo morno conforto e inépcia do poder político. Imagino como Lisboa está farta de não saber do país porque nada lhe dizem. Um enorme país periférico não dá bom nome a uma capital. Também nas notícias. Enquanto vivermos com uma capital inebriada pelo desconhecimento, teremos sempre vespas que, como estas, preferem andar todos estes anos no anonimato.

*Músico e jurista

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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