Opinião

Subterfúgios

Encontra-se um espaço, um local redondo e fechado. Não é à prova de bala, antes fosse, diriam. É nele que se refugiam quando os números não batem certo com as contas, quando as percentagens correm a prova de fundo ao contrário e com a meta bem longe. Ninguém quer estar no pódio das coisas que se escondem por trás das más decisões ou das decisões de interesse duvidoso. É então um desatar ofegante para esse sítio redondo e inimputável, das meias-tintas e das meias-verdades, do jogo do faz-de-conta com a realidade, vítreo. Mentir na cara ou desaparecer? Há quem desapareça assim por uns tempos. A fugir pela sombra até encontrar um refúgio nesse local fechado e opaco. Subterrâneo. Nos afectos, uma ferida emocional à espera de ser descoberta. Na política dos negócios, um abrigo momentâneo tantas vezes à espera da prescrição. Têm cobertura. São quase sempre números.

1. Se há subterfúgios não subterrâneos mas submersos, esses chamam-se submarinos. A polémica onda de indignação aquando da compra por cerca de mil milhões de euros dos submarinos "Tridente" e "Arpão", em 2004, encontrou-os bem debaixo do mar. Escaparam. Mas não ilesos. O Ministério da Defesa acaba de adjudicar - por ajuste directo, isenção de IVA e outros impostos - a manutenção de parte da frota (neste caso, o singelo "Tridente") à empresa alemã ThyssenKrupp Marine Systems. Pela módica quantia de 4,4 milhões de euros (que excepciona outros eventuais pagamentos derivados de mais trabalho, suprimento de erros e omissões), num contrato celebrado a 24 de Abril (data mesmo a preceito), a Marinha portuguesa entrega a árdua missão de reparar o submarino, na Alemanha, à mesma empresa que integrava um consórcio alemão que há oito meses recebeu - por ajuste directo - cerca de 881 mil euros pela manutenção das embarcações. Coincidência nos milhões de léguas submarinas percorridas em ajuste directo? Ora aí está o arpão.

2. Philippe Legrain, consultor de Durão Barroso entre 2011 e Fevereiro deste ano, afirma que o resgate a Portugal foi um mero expediente para salvar a banca alemã. O economista britânico sai da sua zona de conforto e acusa o sector bancário de dominar os governos e as instituições da Zona Euro, estes mesmos que "puseram os interesses dos bancos à frente dos interesses dos cidadãos", apelidando de "quase corrupta" a relação entre bancos e políticos. No papel quase colonial e imperial com que a hegemonia alemã ditou as suas regras, a troika esteve longe de agir nos interesses europeus mas antes nos interesses dos credores de Portugal. A imposição de políticas erradas e o absoluto estado de negação da Comissão Europeia, enleada em falsas projecções da realidade, já nem precisa de manutenção na Alemanha: já nos fizeram a rodagem e Portugal está, assumidamente, pior. Estamos transparentes dentro de águas escuras. Mais endividados do que antes do programa de "ajustamento" e com a dívida privada imutável. O crescimento é uma miríade, a queda do desemprego uma falácia.

3. O dia 25 de Maio deste ano não fica só marcado pelas eleições europeias. No mesmo dia, em Lisboa, instalam-se os nossos estimados credores para um fórum do Banco Central Europeu, uma cimeira da troika no dia em que vamos a votos. Já os vejo por antecipação, ao jantar, com comandos na mão a fazer "zapping" entre canais, assegurada que esteja a tradução simultânea para alemão. A falta de soberania e de vergonha admite estas coisas: como não votam, assistem. Assistem mas, sendo um jogo, já jogaram as cartas que tinham para jogar. A conta será paga em euros embora alguns sejam, não duvido, convictos saudosistas do marco. Farão discursos às dez da noite?

São quase sempre números. E por serem números, permitem encontrar fórmulas de escapar ao escrutínio, moldados que estamos pela ideia de que a impunidade não tem rosto. Desfazem-se e multiplicam-se, agitam-se aos encontrões por tanto quererem bater certo. Dentro ou fora de água, a respirar fundo ou numa inquietação permanente e ofegante, jogam pelas entrelinhas e entregam-se uns aos outros se for caso disso. Mas raramente é. E nesse local redondo e fechado, esperam que passe.