Opinião

Um presidente que se fez refém

Um presidente que se fez refém

Ninguém acreditava noutra solução que não a da marcação de eleições para uma data que permitisse a reorganização da Direita. Marcelo Rebelo de Sousa foi deixando indícios claros ao referir-se à "data mais razoável", àquela que melhor pudesse contribuir "para o esclarecimento dos portugueses e para a tomada de decisões" eleitorais.

Na comunicação de ontem ao país, anunciando a data de 30 de Janeiro, Marcelo nem por uma vez se referiu à calendarização interna das eleições no PSD (e ao conjunto de diferentes soluções ou alianças pré ou pós-eleitorais que delas podem resultar, consoante seja Rui Rio ou Paulo Rangel a ganhar o partido), para justificar uma data que não foi a consensualizada nas audições aos partidos com assento parlamentar.

Para as duas semanas que medeiam entre 16 de Janeiro (a data consensual) e a data marcada para as eleições, o presidente da República (PR) invoca o Natal e o Ano Novo. Proclama a necessidade de evitar debates eleitorais em momentos de reunião familiar, sabendo - porque nela foi eleito - que muitos dos bem-sucedidos e bastante elucidativos debates da eleição presidencial de 2016 (realizada a 24 de Janeiro) aconteceram durante as festividades. O PR, ao não assumir a verdadeira e real motivação do "adiamento" das eleições para 30 de Janeiro, omite ao país a racionalidade da sua decisão.

Para lá do jogo dos inevitáveis interesses partidários, é de bom senso que na ponderação entre 15 dias de "stand by" e a clara identificação das lideranças, o peso da balança caia para a clarificação. Depois de ter recebido e ouvido Paulo Rangel em dia de debate de Orçamento do Estado, Marcelo parece ter ficado refém. De Paulo Rangel, na passada semana, recebeu até uma sugestão plástica de datas para as eleições, proposta que as atirava para o mês de Fevereiro. Seria esta a forma do PR se poder libertar da camisa de forças que para si encomendou, propondo (obviamente) uma data em Janeiro. Ainda assim, agora, com receio de ser acusado de favorecer Paulo Rangel, o PR desperdiça e oculta ao país a legitimidade e o acerto da sua decisão.

Em caso de vitória nas directas no PSD, a 4 de Dezembro, Paulo Rangel teria apenas dois dias para a formulação de listas (que, de resto, teriam de ser elencadas antes do congresso do partido, ainda que o Conselho Nacional o antecipe para Dezembro). Dir-se-á que são problemas internos dos partidos e que o interesse nacional a eles não se deve submeter. Mas sendo estas eleições que resultam de uma crise premeditada e forçada, há quanto tempo está o interesse nacional arredado das forças políticas no poder?

*Jurista

(O autor escreve segundo a antiga ortografia)

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