Opinião

A Itália ajuda a Europa e a Europa ajudará a Itália

A Itália ajuda a Europa e a Europa ajudará a Itália

A Europa suspira de alívio com o novo Governo italiano. Matteo Salvini, o populista radical líder da Liga, provocou a queda do Governo de coligação com o Movimento 5 Estrelas na expectativa de provocar eleições antecipadas onde o seu partido, de acordo com as sondagens, teria uma clara maioria. Mas como aqui escrevi há semanas: tudo pode acontecer na política italiana.

Depois de anos a odiarem-se mutuamente, o Movimento 5 Estrelas e o Partido Democrático uniram-se perante o perigo Salvini constituindo uma coligação alternativa de Governo. Os 5 Estrelas confirmam que a ideologia não conta para estes novos movimentos políticos ou, numa leitura mais cínica, que também os novos movimentos políticos colocam a sobrevivência política à frente dos seus princípios...

Será um Governo mais pró-europeu. O Partido Democrático é tradicionalmente pró-europeu, enquanto o Movimento 5 Estrelas nisto, como noutros pontos, prima pela ambiguidade (alternando entre o euroceticismo e o pedido de adesão aos liberais europeístas do Parlamento Europeu). As figuras do Governo com as pastas da Economia e Europa são europeístas com crédito em Bruxelas. A isto acresce a indicação do ex-primeiro-ministro Gentiloni para comissário europeu, dizendo-se em Itália que terá os assuntos económicos. Resta saber se isso bastará para conseguir da Europa a flexibilidade que permita a este Governo evitar as medidas orçamentais difíceis que a situação financeira italiana parece exigir. O primeiro dilema italiano e europeu é que fazer o necessário pode conduzir ao indesejável: o reforço da popularidade de Salvini.

O segundo dilema diz respeito à política relativa aos refugiados e migrantes. A nova ministra do Interior é uma tecnocrata reputada e respeitada. Mas o Governo terá dificuldade em simplesmente abandonar a política restritiva anterior, profundamente popular em Itália. Os italianos estão convencidos, em parte com razão, que a Europa os deixou sozinhos a lidar com esse problema. Uma solução pode ser a de desterritorializar o problema, criando pontos de entrada dos navios que fiquem sobre administração da própria União Europeia. Seria esta que decidiria se autorizar ou não a entrada dos navios humanitários, mas com a correspondente responsabilidade de fornecer assistência a esses migrantes e decidir sobre os pedidos de asilo e a sua distribuição entre estados-membros. Eis o dilema que se colocaria aos outros estados-membros: estão disponíveis para assumir esta responsabilidade conjunta ou o seu discurso humanitário apenas existe na medida em que essa responsabilidade possa ser confinada à Itália?

*Professor universitário