Opinião

As duas certezas de Centeno e a dúvida que me persegue

Oito anos e mais de 300 mil milhões depois, a Grécia saiu do programa de assistência económica e financeira. Nesses oito anos a Grécia assistiu a uma queda de mais de 25% do seu Produto Interno Bruto (mais do dobro de Portugal), um desemprego superior a 30%, cortes nos salários de 25% e nas pensões de entre 14 a 40% (estando previstos cortes adicionais em 2019). Mário Centeno, o presidente do Eurogrupo, congratulou os gregos pelo sucesso do programa. Reconheceu os sacrifícios feitos, e que as consequências positivas ainda não eram sentidas pelos gregos, mas notou a recuperação económica em curso e instou-os a continuar os esforços feitos.

Já o Mário Centeno, autor do programa económico do PS, defendeu exatamente o contrário sobre o muito mais bem-sucedido resgate a Portugal: os sacrifícios impostos aos portugueses eram desnecessários e foram a causa, não a consequência, do estado do país.

Já muitos falaram da incoerência política de Centeno. Prefiro salientar o que isto nos diz sobre o dilema político criado pelos programas de resgate e os limites que isso coloca a uma genuína transformação estrutural.

O que é fácil politicamente é recusar assumir o ónus dos sacrifícios impostos pelo resgate financeiro. Essa recusa traz ganhos para esses políticos, mas perdas para o país. É que sem o país assumir responsabilidade pela crise e tomar como seu o programa de assistência financeira não consegue gerar a credibilidade externa necessária para negociar melhores condições e se autofinanciar novamente. Como a Grécia descobriu com Varoufakis, transformar um discurso fácil na oposição ("estes sacrifícios não são necessários") na estratégia negocial de um país sobre resgate pode ser desastroso. Para os gregos significou mais um pacote de assistência financeira e austeridade adicional. Isto cria o risco de um ciclo político vicioso nos programas de resgate: a oposição política interna ao programa mina a sua credibilidade, o que por sua vez gera mais austeridade e, consequentemente, ainda mais oposição.

O sucesso português passou por assumir a propriedade do programa mesmo que houvesse muito nesse programa a criticar. Ao custo político interno do Governo em assumir, como sua, uma política de austeridade correspondeu a credibilidade externa que permitiu ao país sair da crise. Mas uma questão ficou em aberto: não sendo essa assunção de responsabilidade ainda hoje consensual, até que ponto a nossa vontade de mudar foi apenas conjuntural? Se, enquanto país, nos "limitámos" a aplicar um programa dos outros sem tirar daí conclusões quanto às nossas próprias responsabilidades e ao que deveria ser um nosso programa, resolvemos um problema, mas mudámos muito pouco. Eis a dúvida que me persegue.

*PROFESSOR UNIVERSITÁRIO