Razão Prática

O estado da nação é o estado da coligação?

O debate do Estado da Nação fica marcado pela divergência, que o precedeu, entre o primeiro-ministro e o seu número 2. Santos Silva defendeu que manter a atual coligação exige acordos sobre "as políticas estruturais de que o país precisa no domínio do território, ambiente, transição energética, política económica e também na política externa e europeia". António Costa veio, não apenas desmentir a necessidade de tais acordos, mas afirmar que seriam impossíveis, uma vez que não é possível "superar divergências que são identitárias".

Por agora, o país está entretido com o mero facto político: trata-se de uma verdadeira divergência ou estão apenas a jogar o papel de polícia bom e polícia mau na telenovela em que parece estar transformada a atual coligação parlamentar? A divergência entre António Costa e Santos Silva diz-nos, no entanto, algo de muito mais importante sobre a concepção da política de um e de outro e sobre o que tem sido realmente este governo.

Santos Silva percebeu que há uma redefinição ideológica em curso na Europa: Esquerda e Direita estão a ser substituídas, enquanto formas de identificação política dominante, pela adesão ou oposição aos processos de interdependência (económica, social, digital) em curso e ao seu impacto na sociedade. Os novos movimentos políticos de sucesso na Europa definem-se com base nesta nova fronteira política. Os partidos políticos tradicionais que a ignoram (pela dificuldade de lidar com um tema que divide o seu eleitorado tradicional) têm sofrido processos de erosão ou mesmo implosão. Este é o eixo ao longo do qual se vão tomar as principais opções políticas do futuro. Santos Silva acredita na relevância política prática disto. António Costa não, pois concebe a política como mera aritmética de interesses. O importante é satisfazer o número necessário de interesses para ter uma maioria suficiente para governar. É isso que define para ele o sucesso desta coligação. Isto, ao mesmo tempo que reconhece que a atual maioria nunca terá uma convergência sobre as políticas estruturais necessárias ao território, economia, ambiente, energia, Europa e política externa! Tirando estas, o que fica? Governar para os interesses que garantem o poder no curto prazo.

Num ponto, António Costa e Santos Silva estão de acordo: esta coligação não fez, nem fará, nenhuma política estrutural. É isto que explica o, cada vez mais preocupante, estado da nação: um crescimento inferior à grande maioria dos países europeus e situações de emergência nos diferentes serviços públicos. O estado da nação só é bom para quem o confundir com o sucesso da coligação.

PROFESSOR UNIVERSITÁRIO