Opinião

Mais vale ter dois pássaros a voar do que um na mão

Mais vale ter dois pássaros a voar do que um na mão

É raro elogiar o primeiro-ministro. Não me oferece muitas razões para isso... Esta é uma dessas raras ocasiões.

Aparentemente, António Costa acedeu ao pedido da futura presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e apresentou um homem e uma mulher como candidatos portugueses ao posto de comissário europeu. António Costa terá abdicado de insistir apenas em Pedro Marques e apresentou também o nome de Elisa Ferreira. Ao fazê-lo, aumentou muito as chances de Portugal obter uma pasta importante na futura Comissão Europeia.

Ursula von der Leyen já afirmou que pretende uma composição paritária entre homens e mulheres na sua Comissão. Para isso, solicitou aos governos que nomeassem um homem e uma mulher. Os estados-membros têm a prerrogativa de indicar quem entenderem, mas a presidente da Comissão tem o poder de rejeitar os nomes indicados pelos governos ou de os "premiar" ou "penalizar" através das pastas que atribui a esses comissários. Poucos governos nacionais acederam ao pedido da nova presidente da Comissão e a maioria nomeou homens. É provável que a nova presidente da Comissão premeie aqueles que acederam ao seu pedido, atribuindo pastas mais relevantes às mulheres. Acresce que Elisa Ferreira é conhecida e respeitada em Bruxelas pelo trabalho que fez como deputada ao Parlamento Europeu.

Portugal pode agora aspirar a uma pasta mais importante do que a política de coesão (que tinha vindo a ser avançada como a pretendida por António Costa). Os fundos estruturais são muito importantes para Portugal, mas isso é distinto da relevância do comissário dessa pasta e da possibilidade de a "usar" para tirar vantagens para Portugal. Com Elisa Ferreira, é expectável uma pasta importante na área económica. Os assuntos económicos seriam até o mais natural para o seu perfil, mas, excetuando uma saída surpreendente de presidente do Eurogrupo por parte de Centeno, é improvável que tal aconteça. A minha preferida seria a pasta do Orçamento Europeu, mas há a forte concorrência de outra candidata socialista (apresentada pela Finlândia). Outra hipótese importante são os serviços financeiros (embora de menor interesse direto e imediato para Portugal). Por último, o emprego. É verdade que a Comissão não tem muitas competências diretas relativamente ao emprego (para além do Fundo Social Europeu). Mas von der Leyen já disse que uma das suas prioridades será a criação de um programa de apoio ao emprego na transição para o digital e a criação de um eventual sistema de seguro ao emprego comum europeu também continuará na agenda. Esta pode vir assim a ser uma pasta com muito mais importância futura e que von der Leyen pode até atribuir a uma vice-presidência.

* PROFESSOR UNIVERSITÁRIO