Opinião

O regresso da competição menos competitiva

O regresso da competição menos competitiva

Dia 4, a Supertaça assinala o regresso do futebol. Poucos dias depois é a Primeira Liga que estará de volta. Prepare-se para uma competição com um par de jogos entusiasmantes entre F. C. Porto, Benfica e (espero bem...) Sporting e uma imensidão de jogos cujo único interesse será saber o dia em que algum dos "grandes" tropeça.

O Observatório do Futebol do Centro Internacional de Desporto produz aquele que é o relatório mais completo sobre a competitividade no futebol. Na sua última edição, analisavam 27 campeonatos nacionais ao longo de 10 anos. As duas principais conclusões? A competitividade tem vindo a decrescer em todos os campeonatos. O campeonato nacional menos competitivo é o português.

Alguns podem ficar surpreendidos com tal resultado, uma vez que existem campeonatos onde o campeão tem sido praticamente sempre o mesmo clube. Mas a competitividade de um campeonato não se mede apenas, nem sobretudo, pela competitividade entre os dois primeiros, mas sim entre estes e todos os outros. Neste aspeto, o nosso campeonato não tem, infelizmente, rival: o primeiro classificado ganha com a maior percentagem de pontos de qualquer outro campeonato. Basta recordar como Benfica e F. C. Porto (no último campeonato) ou Sporting e Benfica (há três anos) quase não perderam pontos com outras equipas na segunda volta.

Este enorme diferencial competitivo não afeta apenas o interesse do espetáculo competitivo da Primeira Liga (e, indiretamente, o seu valor económico). Suscita também enormes riscos e suspeitas sobre a integridade da competição, uma vez que esse diferencial competitivo coloca facilmente todos esses clubes na dependência dos grandes e suscita dúvidas sobre a natureza da competição entre grandes e pequenos. Os grandes têm enorme plantéis que parecem servir mais para gerir as relações com os outros clubes (emprestando, vendendo e recomprando jogadores) do que para reforçar o potencial competitivo das suas equipas.

Li que um desses grandes comprou recentemente um jogador a uma equipa da Primeira Liga com uma cláusula variável dependente do sucesso desportivo desse grande, criando assim um incentivo financeiro para o outro clube o deixar ganhar... Devia ser prioritário regular todos estes conflitos de interesse. Devia ser também prioritário criar formas de redistribuição que reduzam o diferencial competitivo. A centralização dos direitos televisivos seria um ponto de partida mas, em si mesma, não o garante. Tudo dependeria de como os montantes fossem distribuídos. Não tenho grandes esperanças. Todos parecem ter apenas como prioridade ganhar a qualquer custo.

*Professor universitário