Opinião

Muito mais que um doce de Natal

Muito mais que um doce de Natal

O Natal é o momento em que regressamos ao que é fundamental. Isso inclui aqueles que nos são próximos, mas também, por exemplo, a comida que compõe as nossas memórias.

Na minha família é bacalhau na consoada e cabrito no almoço de Natal. E os doces que há muito nos acompanham: dos clássicos da nossa região às receitas de família. Na mesa estão sempre rabanadas. Mas, desde há um ano, umas rabanadas diferentes... São do Chef Vasco Coelho Santos. São iguais e diferentes. Trazem-nos conforto, mas também nos surpreendem e promovem a nossa criatividade (passámos a acompanhá-las de gelado, de queijo no ano passado e este ano de caramelo salgado e nozes). São as melhores rabanadas que alguma vez comi (conheço quem detestasse rabanadas e se tenha convertido depois de provar as rabanadas do Vasco). Diferentes e familiares ao mesmo tempo. Nunca julguei que alguma coisa pudesse mudar no Natal. Na verdade, não mudou, mas ficou diferente...

Não é caso único. Dei comigo a pensar que são como as Quatro Estações de Vivaldi. Não há música mais reproduzida, tocada e abusada do que as Quatro Estações. E, no entanto, não apenas resiste como se reinventa, sem deixar de ser a mesma. Diferentes maestros, e até compositores, oferecem-nos diferentes versões. As melhores são aquelas que nos confortam, sendo fiéis ao original, mas simultaneamente o reinventam e nos fazem descobrir algo de novo.

Tudo o que é mais grandioso não permanece imutável. Muda mesmo quando parece permanecer igual. É aquilo que em vez de resistir à inovação e criatividade as promove, mas garantindo que são fiéis à sua identidade.

A comida e a música também nos podem ensinar filosofia. Eis a forma como devemos lidar com a identidade. Não como um muro, mas sim como um instrumento. A identidade alimenta-se da mudança ao mesmo tempo que garante que esta faz sentido. A identidade é a memória atualizada. Não se conserva, pratica-se. As identidades mais bem-sucedidas são as que permaneceram abertas à mudança. Sabem que isso não as coloca em causa, antes as reforça. Afinal, não sabemos se as rabanadas são uma criação original nossa (os franceses têm algo igual) ou importada. Sabemos que hoje são nossas. Mas também de formas diferentes. Para alguns até são fatias douradas... A identidade também vive da diversidade na partilha de uma memória comum. As identidades mais fortes não se impõem aos outros, abrem-se a estes e ficam mais fortes com eles. São fiéis à memória do passado, adaptando-se ao presente.

Os doces que honram a nossa identidade respeitam a tradição. Mas os doces que promovem essa identidade são aqueles que, partindo dessa tradição, lhe juntam uma memória nova. Contribuem para essa tradição. E estou a falar de doces de Natal, mas de muito mais do que isso também.

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*Professor universitário

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