Razão Prática

O que é feito dos valores olímpicos

O que é feito dos valores olímpicos

Muitos terão visto as manchetes desta semana anunciando que o Tribunal Arbitral do Desporto confirmou a decisão do Comité Olímpico Internacional que exclui a Rússia dos próximos Jogos Olímpicos, na sequência da descoberta de um programa sistemático de doping promovido e implementado pelo Estado russo. Poucos terão notado num pequeno detalhe: os atletas russos poderão competir, apenas não poderão usar a bandeira russa...

Passaram alguns anos desde os principais acontecimentos que despoletaram a investigação (nos Jogos Olímpicos de inverno de Sochi) e que são retratados no documentário Icarus, vencedor do Oscar em 2017. Na sequência do relatório independente de Richard MacClaren e da proteção concedida pelos americanos ao ex-diretor da Agência Antidoping da Rússia que denunciou o envolvimento nesse programa do Governo russo, o movimento olímpico, sobre pressão da Agência Mundial Antidoping, decidiu finalmente sancionar a Rússia, mas de forma puramente simbólica.

O Comité Olímpico Internacional demonstrou ser incapaz de se governar de acordo com os próprios ideais e valores olímpicos. Richard Pound, uma grande figura olímpica, diz que há um enorme problema de concentração de poder nas organizações desportivas internacionais. Acresce que esse poder raramente muda de mãos. Um sinal disso: uma análise recente das eleições nas diferentes federações desportivas pertencentes ao movimento olímpico detetou que em mais 70% dos casos os presidentes em funções eram reeleitos sem sequer terem oposição. Muitas dessas federações têm poucos meios, mas outras envolvem milhões de euros e, no caso das olimpíadas, estamos a falar de milhares de milhões.

Muitos milhões de euros e uma enorme concentração de poder não sujeita a mecanismos independentes de fiscalização, tem necessariamente de acabar mal. Os casos de corrupção, lavagem de dinheiro e conflitos de interesse têm-se multiplicado, mas são difíceis de investigar e denunciar. A prevenção não existe quando estas organizações se governam a si próprias. O silêncio predomina no mundo do desporto (os atletas e agentes desportivos que denunciem algo são, de facto, ostracizados por esse mundo e não confiam nos instrumentos de fiscalização criados dentro das organizações desportivas, pois são controlados pelos mesmos que deviam servir para fiscalizar). A ironia (triste) é que alguns dos atletas que denunciaram o doping de Estado, vivem hoje escondidos e foram impedidos de voltar a competir. Ficarão a ver pela televisão competir aqueles que não denunciaram e conseguiram escapar aos controlos.

Nós também iremos ver na televisão dirigentes olímpicos e políticos a conviverem nas bancadas enquanto fazem magníficos discursos sobre os ideais e valores olímpicos.

*Professor Universitário

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