Opinião

O que esconde a palavra populismo

O que esconde a palavra populismo

A palavra do momento é "populismo" mas poucos a definem, para além da conotação pejorativa que lhe atribuem. O perigo é que se confundam as razões da popularidade do populismo com o próprio populismo. Devemos atender às primeiras e combater o segundo.

O populismo é, na sua origem, uma ideologia que faz coincidir na vontade popular não apenas a democracia mas também a verdade. A conceção dominante de democracia adotou, no entanto, uma conceção pluralista da procura da verdade. Por isso, organizámos a democracia, não apenas como vontade da maioria, mas como um processo deliberativo em que diferentes posições sobre o que é o bem comum são contrapostas e discutidas no seu mérito ainda que, em ultima análise, arbitradas através do voto maioritário. Para esta conceção liberal da democracia, que valoriza a democracia representativa, a vontade maioritária deve partir da qualidade dos argumentos e tem de coexistir com o respeito pelo pluralismo.

O populismo apresenta-se, historicamente, para combater estas dimensões elitista e pluralista. Os movimentos populistas apresentam uma visão do Mundo dividido entre as elites (que ocupam o poder) e o povo (concebido como uma unidade de uma só vontade). A tarefa dos populistas é retomar o poder, em nome do povo, contra essas elites. É fácil compreender o apelo que isto representa em contextos históricos, como o atual, em que uma parte substancial da sociedade se acha não representada pelo sistema político. É também fácil perceber as consequências perversas a que o populismo conduz. Primeiro, a vontade do povo (expressa pela maioria) é, por definição, a verdade e logo não pode estar sujeita a nenhum mecanismo de controlo de poder. O populismo reduz a democracia ao voto da maioria e acaba com os mecanismos de controlo e separação de poderes. Segundo, uma vez que essa verdade não depende do mérito, visto como reflexo do poder das elites, os factos e conhecimento são desvalorizados no processo democrático. Por tudo isto, o populismo não deixa margem para dissidências. Os que discordam são inimigos. Os que se opõem são sabotadores. Todos os factos que não suportem a narrativa são explicados como parte da conspiração das elites e, logo, apenas confirmam essa mesma narrativa, ao demonstrar como tal conspiração é ampla e poderosa.

É irrelevante se um populista acredita na missão que diz prosseguir ou se simplesmente a manipula ao serviço de uma estratégia de poder pessoal. A consequência é a mesma: uma concentração absoluta de poder. É essa concentração absoluta de poder que inevitavelmente se vira contra aqueles que concederam esse poder. É por isso que o populismo, partindo da democracia, acaba por a destruir.

* PROFESSOR UNIVERSITÁRIO

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