Opinião

O que se perde ganhando por muitos

O que se perde ganhando por muitos

Que adepto não celebra com entusiasmo uma vitória por 10 golos ou um ciclo vitorioso de 15 vitórias seguidas? Como sportinguista só tenho pena que o clube não me ofereça presentes desses...

Como adepto de futebol, no entanto, a crescente diferença competitiva preocupa-me seriamente. Um estudo recente do "Football Observatory" identifica um claro aumento do diferencial competitivo na Europa.

O estudo analisou a percentagem de pontos do primeiro classificado em 27 campeonatos. Quanto mais pontos conquistados pelo primeiro, maior o diferencial. Isto não exclui, nalguns casos, competitividade pelo primeiro lugar. Mas a competitividade entre duas equipas pode coincidir com uma diferença abissal para todas as outras. Recordem o recorde de pontos de Sporting e Benfica em 2015/2016, ganhando praticamente todos os jogos na segunda volta. Portugal é, aliás, de acordo com esse estudo, o campeonato menos competitivo da Europa. Mas todos os campeonatos têm perdido competitividade. O mesmo agravamento é visível na cada vez maior diferença de golos por jogo.

A correlação entre capacidade financeira e sucesso desportivo está bem comprovada. Recentemente, uma análise da KPMG apurou que em todos os grupos, com uma exceção, da Champions League, as duas equipas qualificadas são as que têm maiores orçamentos. A perda de competitividade está assim relacionada com fatores económicos. Primeiro, a distribuição dos direitos da Champions League tem tido consequências muito perversas, em particular nas ligas pequenas e médias. Nestas, o clube que beneficia do acesso à Champions ganha uma vantagem financeira que depois se traduz numa vantagem desportiva que se vai continuamente alimentando e perpetuando. Segundo, a importância dos direitos televisivos tende, na ausência de redistribuição entre clubes, a contribuir para esse agravamento. Terceiro, o regime do financial fair play, tendo contribuído para um maior equilíbrio e responsabilidade dos clubes, tende a consolidar o diferencial financeiro e competitivo, vedando aos clubes com menos receitas o acesso a outras formas de financiamento.

Este é um enorme desafio do futebol. Não se trata apenas da perda de interesse da maior parte dos jogos. O aumento do diferencial competitivo também agrava os riscos para a integridade desportiva. A Autoridade da Concorrência solicitou recentemente ao Governo que intervenha, impondo uma negociação centralizada, e por pacotes, dos direitos televisivos. Sejamos claros, sem formas de redistribuição entre clubes, de pouco servirá a centralização de direitos. E sem uma estratégia para abordar o tema da redistribuição a nível europeu será impossível resolvê-lo a nível nacional.

*Professor universitário