Opinião

Os desafios da política em 2020

Os desafios da política em 2020

Depois de na última semana ter abordado as lições que 2019 ofereceu para a política, quero escrever hoje sobre os seus desafios futuros.

1 - A Fragmentação. A multiplicação de novos partidos e a perda de maiorias estáveis e coesas representam um desafio para os partidos tradicionais, mas, também, para a própria democracia. É verdade que esta fragmentação reflete a perceção, pelos eleitores, de que os partidos tradicionais já não representam todos os interesses que os preocupam e não podemos desvalorizar a renovação política que trazem. Mas esta fragmentação comporta um risco elevado para a função fundamental da política: a reconciliação de interesses diferentes na formulação de um bem comum. As agendas monotemáticas de muitos desses partidos agravam este risco e a possibilidade de captura da procura de um bem comum por esses temas particulares. A capacidade de manter a dimensão global e agregadora da política, na busca de um bem comum, num contexto político mais fragmentado e polarizado, é um dos principais desafios que enfrentamos.

2 - Efetividade. Os estudos de opinião mais recentes continuam a revelar uma forte preferência dos cidadãos pelo regime democrático. Ao mesmo tempo, no entanto, também revelam uma crescente insatisfação com a democracia, em grande parte associada à perceção de que esta já não consegue produzir resultados. A democracia tem uma dimensão processual, mas também depende, na sua legitimidade, de uma dimensão substantiva. A ideia democrática de autogoverno está inevitavelmente associada à capacidade de governar, de ser eficaz na resposta aos desafios identificados pelos cidadãos. Quer a crescente fragmentação e polarização políticas que mencionei quer a crescente natureza transnacional desses desafios estão a tornar as democracias nacionais mais ineficazes na resposta aos mesmos. Como conseguir recuperar a eficácia democrática é o segundo grande desafio.

3 - Verdade. Nenhuma democracia pode ser construída sem verdade, sendo que, em democracia, a verdade é produto do pluralismo. Mas esse pluralismo sempre foi "regulado" pela existência de fontes a que os cidadãos atribuíam mais ou menos crédito. Hoje tudo parece merecer a mesma desconfiança e, logo, tudo pode ser verdade ou mentira. A perda de confiança nos "editores" tradicionais da democracia (partidos, sindicatos, jornalismo) implica a perda de referências sobre a verdade. Isto é agravado pelos exemplos de interferência de outros estados - através dos meios digitais - em processos democráticos. A reconstrução dos processos editorais necessários à procura da verdade e a proteção das democracias face a essas interferências são as outras prioridades.

*Professor universitário

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