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Os riscos de captura nos novos partidos

Os riscos de captura nos novos partidos

A deputada do Livre Joacine Katar Moreira passou de ícone de muitos a "saco de pancada" generalizado.

A sua forma de fazer política através da exposição da sua pessoa, em que o que é ou o que faz é politicamente mais significativo do que o que diz, virou-se contra ela própria com uma violência representativa dos tempos de hoje (e, ironicamente, do motivo porque teve tanto sucesso inicial): sem nuances, sem meios-termos, sem lugar a juízos complexos. No espaço público de hoje ninguém pode querer alimentar-se da exposição e depois querer geri-la. E nas tribos que ocupam esse espaço público ou alguém faz tudo bem ou faz tudo mal ou alguém está sempre certo ou está sempre errado.

Se muitos têm falado do conflito entre Joacine e o Livre, poucos têm escrito sobre o que este episódio nos ensina sobre partidos pequenos e recentes. O sistema político necessita de renovação. Os novos partidos têm o mérito de trazer mais gente para a política, oferecendo uma oportunidade de representação a interesses que se consideram insuficientemente representados pelos partidos tradicionais. Nesse sentido, também obriga estes partidos, e o sistema no seu todo, a atender a um maior leque de interesses. Têm também a vantagem de desafiar as redes de poder e favoritismo que partidos há muito no poder inevitavelmente produzem. Mas estas vantagens têm um reverso da medalha que traz substanciais riscos políticos.

Ao contrário dos partidos tradicionais, estes partidos não têm processos bem estabelecidos de seleção e crivo sobre quem lá está. É verdade que esses mecanismos de seleção e promoção nos partidos tradicionais têm frequentes falhas e dificultam a entrada na política de muitos (servem tanto para selecionar como para proteger os que já lá estão). Mas, esses defeitos, são mais confiáveis, ou pelo menos previsíveis, do que um partido recente que se expande rapidamente. Estes são uma tela em branco. Proporcionalmente ao seu sucesso, correm o risco de ser facilmente capturáveis por diferentes interesses (bons e maus). Com todos os seus defeitos sabemos aquilo com que contamos nos partidos tradicionais. Mas dificilmente o sabemos quando votamos num novo partido. Quase sempre, parte de uma pessoa ou de um único tema. Ora, uma representação política não se faz apenas com uma pessoa ou um tema. E quando depende disso torna-se volátil e perigosa. O partido de Rui Tavares, visto como de uma Esquerda europeísta, ambientalista e cosmopolita tornou-se o partido de Joacine Katar Moreira, da Esquerda radical e identitária. O PAN dos direitos dos animais, tornou-se um partido global com uma agenda ambígua ou desconhecida.

*Professor universitário

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