Opinião

Take back control

Take back control (retomar o controlo) foi o slogan, bem-sucedido, dos defensores do Brexit.

A tese é que o controlo sobre as nossas vidas foi transferido para Bruxelas e é necessário reavê-lo. O que tem acontecido com o Brexit demonstra quão ilusória é esta tese, mas ela funcionou porque apela ao sentimento de incerteza e segurança que domina hoje os cidadãos. A globalização e a sociedade digital estão a mudar o nosso espaço e a forma como nos organizamos, do trabalho à política...

O primeiro erro dos eurocéticos é atribuírem essa transformação à União Europeia (EU). Poderíamos não ter UE e teríamos refugiados e migrantes a chegarem às costas italianas e gregas. Sem a UE até seria bem mais improvável qualquer acordo com o Turquia e outros países para limitar esse afluxo na origem. E será que sem a UE era mais fácil a Portugal controlar o uso de dados pessoais pelas plataformas digitais ou impor-lhes o pagamento de impostos? E sem a UE estaremos em melhor ou pior posição para gerir a nossa relação com potências como a China ou a Rússia? Também não é a UE que está a mudar a natureza do trabalho, através da robotização e inteligência artificial, ou a promover a concentração da riqueza numa economia digital que concentra o valor económico na marca e propriedade intelectual e já não no processo de produção de um bem. São estas transformações profundas que assustam e interrogam os cidadãos. O segredo do sucesso dos populistas soberanistas foi identificar esses receios e atribuir-lhes um responsável: a UE....

Mas a UE não está na origem desses desafios. Onde a União tem falhado é no seu contributo para responder a esses desafios. E não deixa de ser assim estranho que tantos defendam ainda mais limites a essa capacidade de resposta......

Macron tem um mérito. Percebeu que a única resposta possível aos populistas é oferecer outra estratégia de "take back control" e que neste Mundo interdependente isso só pode acontecer através da UE. E tem também a consciência de que esta questão é a nova linha de divisão ideológica europeia, mais do que Esquerda e Direita. O seu projeto europeu é, igualmente, um projeto de redefinição das fronteiras políticas. Onde falha é na conceção dessa resposta. Ele concebe uma resposta europeia francesa e não genuinamente europeia. Muitas das críticas ao seu manifesto desta semana resultam disso: os franceses a verem na Europa a oportunidade de reporem a soberania do modelo francês ainda que não já da França. Macron percebe que a nossa interdependência política já não é nacional. Mas, como muitos, ainda se recusa a aceitar a conclusão que segue disso: qualquer política de raiz nacional só encontrará culpados, nunca soluções, aos problemas da interdependência para além dos nossos estados...

Professor universitário

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