Razão Prática

Vocês sabem do que estou a falar

Vocês sabem do que estou a falar

Na semana que passou, o país converteu-se em réplicas de Octávio Machado... Vocês sabem do que estou a falar. Tivemos até uma reunião entre o primeiro-ministro e a Ordem dos Médicos para discutir aquilo de que vocês sabem do que eu estou a falar e que terminou sem sabermos o que realmente falaram...

Na origem, estiveram declarações sobre os médicos proferidas pelo PM já depois de concluída uma entrevista a jornalistas do "Expresso" e num contexto em que o primeiro-ministro falava no pressuposto de que as suas declarações não seriam publicas. Por vezes, os jornalistas combinam com a sua fonte que certas declarações são proferidas "off the record" ou como "background". No primeiro caso, as declarações podem ser usadas, mas sem ser atribuídas a alguém em concreto (é o que lemos num jornal como "fontes próximas de"). No segundo, nem sequer podem ser usadas. Servem apenas para fornecer informação adicional sobre um determinado contexto.

Deontologicamente, o jornalista que assume o compromisso de confidencialidade com a sua fonte tem de o respeitar (só fica dispensado do mesmo se, por exemplo, apurar que a fonte lhe mentiu). Se assim não fosse, a relação de confiança entre os jornalistas e as suas fontes seria destruída. Já os outros jornalistas, não tendo assumido esse compromisso, não estão sujeitos à expectativa de confidencialidade se o interesse público justificar derrogar da mesma. É isto que resulta das regras deontológicas do jornalismo e da própria jurisprudência do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. A grande maioria dos jornalistas entendeu que as declarações do PM não preenchiam tal requisito, talvez considerando que, ainda que revelem algo do caráter ou estado de espírito do PM, não trazem informação nova suficientemente grave que justifique a violação da presunção de confidencialidade com que foram feitas. Sendo compreensível, não posso deixar de notar a inconsistência com a avaliação feita noutros casos. Episódios semelhantes envolvendo Passos Coelho, Vítor Gaspar ou Augusto Santos Silva não tiveram o mesmo critério. Para além disso, ele contrasta com o critério empregue para aceitar o que os políticos podem dizer "off the record". Um jornalista também só deve aceitar que certas declarações sejam ditas "off the record" se a natureza e interesse público das mesmas o justificar e se as poder corroborar com outras fontes. Acontece que isto não é respeitado. A função do "off the record" foi pervertida, tendo-se transformado num instrumento de comunicação política a coberto do anonimato. Usado para enviar mensagens e condicionar "narrativas" sem se assumir a autoria das mesmas. Isto abre portas à manipulação da comunicação. Vocês sabem do que estou a falar...

*Professor universitário

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