Opinião

A verdade e o azeite

Quando a Associação Comercial do Porto alertava, há um ano e meio, para a insustentabilidade do processo de reestruturação da TAP, ainda eram poucas as vozes críticas sobre o assunto.

Depois procuramos, através de providência cautelar, impedir que 1200 milhões de euros dos nossos impostos fossem parar a uma empresa inviável e fomos causticados pela opinião pública. A defesa de uma nova operadora, na linha do que aconteceu em Itália, foi vista como blasfémia e justificou até intervenções dos responsáveis máximos pela empresa.

Felizmente, a verdade e o azeite vêm sempre ao de cima. As notícias recentes, que apontam para uma quota de 10% da transportadora nacional no Aeroporto Francisco Sá Carneiro, vieram confirmar o que há muito vínhamos a alertar: a TAP não promove a coesão territorial e concentra o seu modelo de negócio na plataforma de Lisboa. Sendo isso legítimo numa companhia exclusivamente privada, numa empresa pública e financiada pelos contribuintes é totalmente inaceitável, porque coloca todo o país a financiar uma companhia que não o serve em igualdade de meios e de serviços.

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Hoje, a corrente de opinião maioritária já aponta claramente as iniquidades deste processo. Esta semana, por exemplo, o Instituto +Liberdade publicou um livro com o sugestivo título "Milhões a voar - As mentiras que nos contaram sobre a TAP", onde se escalpelizam alguns dos indicadores mais gravosos na reestruturação da companhia dita nacional. Um deles é particularmente chocante: a TAP demoraria quase 35 anos a reembolsar o valor que o Governo prevê injetar - quatro mil milhões de euros - e isso numa previsão otimista, assumindo que manteria o melhor resultado dos últimos cinco anos. Como se percebe facilmente, nada disto vai suceder. As asas vão deixar de bater e o poço não tem fundo.

Ao coro de críticos, juntou-se recentemente o presidente da República, exigindo uma clarificação política sobre o tema. Ainda bem que o fez. É fundamental apertar o escrutínio a este tipo de decisões e obrigar quem se apresenta a eleições a dizer ao que vem. O dinheiro dos contribuintes não é um cheque em branco.

Empresário e presidente da Associação Comercial do Porto

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