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COP27: a cimeira do cinismo

COP27: a cimeira do cinismo

Esperava-se que a nova COP trouxesse medidas robustas para travar o que já é apelidado como a "autoestrada para o inferno" e que ficou bem expresso no relatório da Organização Mundial de Meteorologia deste ano: aumentaram em 50% as probabilidades do nosso planeta sofrer um aumento médio da temperatura superior ao estipulado pelo Acordo de Paris (1.5ºC), nos próximos cinco anos.

A realidade é que os 12 dias da cimeira do clima não representaram nenhum avanço substancial, em matéria de compromissos para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, abandono progressivo dos combustíveis fósseis e antecipação das metas de descarbonização - ações indispensáveis para travar a subida dos termómetros. Foi, aliás, necessário haver descontos e prolongamento no jogo de bastidores, para que saísse de Sharm El Sheik um acordo digno desse nome, onde a medida fundamental foi a criação de um fundo de compensação para os países mais vulneráveis às alterações climáticas.

Este esforço diplomático extra foi obra, no essencial, destes estados mais castigados e da própria União Europeia, que forçou a obtenção de um acordo perante o arrastar de pés da Índia e da China. E aqui reside a grande perplexidade destas cimeiras do clima: a tensão entre quem está de boa-fé nas negociações e os grandes poluidores, com as potências asiáticas à cabeça, a protelarem o mais possível o abandono dos combustíveis fósseis. Esta clivagem voltou a ser evidente em duas atitudes muito concretas. Por um lado, a afirmação das comitivas chinesas e indianas de que estariam recetivas a uma meta de 2ºC de mitigação, contrariando todo o consenso global sobre a matéria; por outro, a intenção manifesta por estes e por outros países - como a Rússia ou a Arábia Saudita - de não contribuírem para o fundo de perdas e danos.

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É com este cinismo que a Europa tem de saber lidar nos próximos anos. Sob pena de ser castigada por uma onda de populismo interno, que já começa a emergir e trará custos eleitorais. É fundamental, por isso, manter firmeza nos propósitos e coragem nas medidas, não cedendo um milímetro ao curto prazo. Mesmo que a duras penas, o futuro mostrará quem tem razão.

Presidente da Associação Comercial do Porto

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